Resag

Falta água para o abastecimento urbano?

Série Boletim Resag

A água enfim tomou o lugar que lhe pertence entre as preocupações cotidianas em São Paulo e, quiçá, em todo o Brasil. Infelizmente o viés de destaque é negativo: a água vai acabar. A questão já não mais se refere à possível falência do abastecimento da principal metrópole do país, com PIB equivalente a R$477 bilhões (11,5% PIB brasileiro1), senão quando isso ocorrerá no que tange ao Sistema Cantareira de Abastecimento. Este sistema hoje abastece 8,1 milhões de habitantes da capital paulista2.

Recente reportagem publicada analisa a situação do Sistema Cantareira, fundamentando-se em relatório produzido pelo Gtag (Grupo Técnico de Assessoramento para Gestão): "no melhor dos cenários, a água acaba em setembro e, no pior, em julho. No intermediário, o fim das reservas ocorre em agosto. Na última previsão, feita em fevereiro e que contava com precipitações maiores em março, a previsão era, no melhor dos cenários, que a água não acabasse e os reservatórios chegassem a dezembro com 21%. No pior, a água acabaria no fim de agosto e, no intermediário, os reservatórios chegariam a dezembro com 5%"3.Diante dessa realidade: algumas perguntas são inevitáveis, ao observador mais atento, que enxerga outros fatores de gestão deste recurso natural que vai além do humor das chuvas: o que causou o esgotamento do sistema de abastecimento de água em SP? É possível culpar o clima ou há outros fatores de influência passíveis de melhor gestão por parte do Estado? Havia informação que prenunciava o colapso do sistema? Por que nada foi feito?

Assim, o Boletim RESAG abre espaço para a discussão da questão do (des)abastecimento de água nos espaços urbanos brasileiros.

Construindo uma crise

O esgotamento do Sistema Cantareira tem grande relação com questões urbanísticas, de planejamento e mercado imobiliário. Em razão da falta de moradia com a qual sofre grande parcela da população metropolitana, bem como com a pressão advinda dos agentes que regem o mercado imobiliário, pessoas foram cada vez mais afastadas do centro da cidade e empurradas para terrenos mais econômicos oferecidos nas cidades periféricas e distantes da região central. Não por menos são essas regiões, mais desabitadas e com o entorno natural mais preservado, que abastecem com água a Capital.

Estes municípios que compõem a região do Sistema Cantareira experimentaram grandes mudanças no que se refere ao aumento de suas populações e à ocupação de terras, sem que o Estado adotasse políticas públicas suficientes para minimizar ou reverter esse processo.

No entanto, essa ocupação inadequada também ocorreu por parte de setores mais abastados economicamente da população e foi estimulado pelo próprio Estado. Reportagem recente do UOL expõe: "não foi um crescimento provocado só pelas pessoas mais pobres. No entorno da represa de Mairiporã (que compõe o Sistema Cantareira), por exemplo, foram construídos clubes e casas nas quais só se chega de balsa ou de barco. O mesmo fenômeno aconteceu em Piracaia e nas outras cidades que têm grandes reservatórios no sistema Cantareira. Várias casas de veraneio, enormes, luxuosas, foram erguidas ao lado ou coladas às represas. Em Caieiras, condomínios de alto padrão foram construídos no trecho da serra da Cantareira que passa pela cidade, onde estão várias nascentes". E complementa afirmando que "outro ataque aos mananciais vem do próprio governo de São Paulo", quando cria condições para ocupação de terras com as obras do Rodoanel, cujo traçado passa por áreas sensíveis e com grande potencial de dano ambiental.

O impacto dessa ocupação poderia também ter sido minimizado caso houvesse o devido tratamento do esgoto produzido nesses municípios e que contamina os próprios reservatórios de abastecimento. A falta de tratamento e a contaminação da água acabaram por encarecer sobremaneira os custos de tratamento: "de 1998 a 2005 o custo de tratamento da água na Grande São Paulo cresceu 100%. No sistema Cantareira, foi bem pior. O custo explodiu para além dos 200%"2.

Setor Industrial

Dados apontam que 20% da água consumida no país é utilizada pela indústria, número dentro da média internacional. No entanto, o impacto da poluição gerada pela devolução sem tratamento do recurso natural ao ambiente é desproporcional à participação no consumo, pois "embora o volume do descarte industrial seja inferior ao total de esgotos residenciais que deixa de ser coletado e tratado pelas redes públicas, seu efeito nocivo ao meio ambiente pode ser equivalente ou até pior. Estima-se que cada litro de esgoto industrial seja, em média, 6,6 vezes mais poluidor do que os esgotos residenciais"4.

A mesma reportagem da revista Exame que cita o dado anterior também pontua que as "indústrias paulistas descartam cerca de dez milhões de efluentes cheios de resíduos tóxicos e sem tratamento algum nos rios e lagos dos municípios de São Paulo. Por dia, o descarte ilegal de esgoto industrial daria para encher dois lagos do Parque Ibirapuera."

Os efeitos nocivos do lançamento desse esgoto industrial sem tratamento são preocupantes, já que há metais pesados causadores na população de diversas enfermidades.

A captação de água da indústria é marcadamente realizada por poços que extraem água diretamente do lençol freático: "cerca de 9 litros a cada 10 litros consumidos pela indústria tem origem em poços artesianos"4.

A identificação de fatores de influência e responsabilidades no colapso do abastecimento de água à população hoje é feita pelos habitantes da cidade de São Paulo e região, porém muito brevemente deverão ser feitas também por todos os brasileiros, se nada ou pouco for feito em relação à essencial gestão dos recursos hídricos nacionais.

Acompanhe outras reportagens da série "A (falta de) água para abastecimento urbano" na próxima edição do Boletim RESAG.

Envie seus comentários ao e-mail boletim@resag.org.br, participe!

  • [1] http://veja.abril.com.br/noticia/economia/pib-municipios-2011-cidade-de-sao-paulo-perde-participacao-no-pib-nacional
  • [2] http://gizmodo.uol.com.br/giz-explica-agua-sistema-cantareira/
  • [3] http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/04/02/cantareira-ficara-sem-reserva-de-agua-ja-no-2-semestre-mostra-relatorio.htm
  • [4] http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/esgoto-industrial-ilegal-enche-2-ibirapueras-por-dia-em-sp

Resag
Avenida Paulista, 2.200 - 9º Andar, CEP 01310-300
Consolação, São Paulo - SP - Brasil
Tel.: +55 11 3283 1073
C2013 Resag - Todos os direitos reservados
Produzido por BRSIS