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Boletim Especial Resag n° 35


Pesquisa científica afirma que coronavírus já estava no Brasil em novembro

É a amostra sars-cov-2 mais antiga da América. Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina será publicada após revisão por pares

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Ainda não se sabe exatamente quando o coronavírus deixou o território chinês, onde foi registrado pela primeira vez, quando começou a se espalhar pelo mundo, afetando severamente a Europa, os Estados Unidos e a América Latina, especialmente o Brasil. No entanto, pesquisa realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), publicada na quinta-feira, acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeça da pandemia.Pesquisadores encontraram partículas SARS-CoV-2 em amostras de águas residuais em Florianópolis, capital de Santa Catarina, em 27 de novembro. Esta é a amostra mais antiga do coronavírus encontrado na América até hoje, explicou a pesquisadora Gislaine Fongaro, do Laboratório de Virologia Aplicada da UFSC.O artigo, fruto de uma colaboração entre diversos laboratórios e departamentos da universidade, foi publicado no portal de artigos científicos medRxiv. Na última sexta-feira foi enviado para uma revista científica e está sendo revisado por outros pesquisadores da área.

Segundo Fongaro, os pesquisadores tiveram acesso a águas residuais congeladas - aquelas que saem de casa e se dirigiam diretamente ao esgoto - que haviam sido coletadas mensalmente para outros estudos de virologia. O objetivo era tentar detectar o vírus a partir de quando o vírus estava circulando entre a população. No material coletado até o final de outubro não havia restos mortais de SARS-CoV-2. O resultado positivo começa em 27 de novembro, quando foram encontradas 100.000 partículas por litro de efluentes. "[Nas águas de] em 4 de março encontramos um milhão de partículas por litro de água residuais, o que é explicado pelo aumento da circulação do vírus", explica o virologista.

Partículas do vírus são excretadas do corpo humano depois de circular pelo corpo por cerca de 20 dias. Isso indica, segundo o estudo, que o coronavírus já estava no início de novembro entre a população de Florianópolis, cidade famosa por suas praias e muito frequentada por turistas argentinos."Mesmo antes de estarmos cientes de sua rotina nos pacientes, tanto assintomática quanto sintomática", diz Fongaro. O primeiro caso de coronavírus foi confirmado na China em 17 de novembro.

Para identificar a presença de partículas coronavírus no esgoto, o virologista observa que foram realizados testes de RT-PCR, que medem o número de cópias do genoma viral. Foram então realizados testes interlaboratoriais independentes, confirmando a assinatura genética do SARS-CoV-2.Fongaro também enfatiza que o estudo dessas partículas no esgoto e o sequenciamento do genoma do vírus podem ajudar a descobrir sua "história evolutiva", identificando sua origem, as rotas que tomou e possíveis mutações. A pesquisa só foi possível graças à preocupação de preservar adequadamente o material coletado para outros estudos universitários, acrescenta.

Fongaro também explica que este é o primeiro registro sars-cov-2 na América porque nenhum outro estudo foi realizado no continente com amostras de águas residuais coletadas meses antes da pandemia. No entanto, pesquisas semelhantes na China, Espanha e Itália indicaram que o coronavírus já estava circulando entre a população desses países antes do diagnóstico dos primeiros casos.

No Brasil, um estudo recente da Universidade Federal de Minas Gerais e da Agência Nacional de Águas no esgoto de Belo Horizonte concluiu que o número de pessoas infectadas na cidade é 10 vezes maior do que o registrado pelas autoridades. A Fundação Oswaldo Cruz(Fiocruz) também realizou estudos em Niterói, cidade do Estado do Rio de Janeiro, para identificar a presença de material genético na rede de saneamento e monitorar o comportamento do vírus durante a pandemia.

Histórico do coronavírus no Brasil

O primeiro caso registrado de coronavírus no Brasil ocorreu em 26 de fevereiro, quando um empresário paulistano de 61 anos, que havia retornado recentemente da Itália, país que começava a enfrentar uma rápida expansão de casos de covid-19, deu positivo. Em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde declarou que o mundo sofria de uma pandemia. Pouco depois, em 17 de março, o Ministério da Saúde confirmou a primeira morte no Brasil, embora esta semana tenha declarado que a primeira morte ocorreu em 12 de março.

Antes da investigação da UFSC ver a luz, já havia indícios de que o vírus estava circulando no território brasileiro antes do Carnaval. Esses achados baseiam-se na análise do aumento dos registros graves da Síndrome Respiratória Aguda no Brasil e nos achados mais recentes sobre a origem do vírus e na investigação de casos suspeitos que foram encaminhados ao Ministério da Saúde. Além disso, análises realizadas por pesquisadores da Fiocruz mostraram que o coronavírus circulou na Europa e na América durante os primeiros meses do ano sem ser identificado. Os contágios entre as pessoas do território brasileiro começaram na primeira semana de fevereiro, segundo os pesquisadores.

Pesquisadores e Laboratórios que conduziram o estudo

Assinam a pré-preprime do artigo Gislaine Fongaro (Laboratório de Virologia Aplicada - LVA-UFSC), Patrícia Hermes Stoco (Laboratório de Protozoologia da UFSC), Doris Sobral Marques Souza (1º ALIS- UFSC), Edmund Carlos Grisard (Laboratório de Protozoologia da UFSC), (Laboratorio de Maria Elisa Magri (Secretaria de Saúde e Engenharia Ambiental), Paula Rogovski (LVA-UFSC), Marcos André Schorner (Laboratório de Biologia Molecular, Microbiologia e Sorologia - LBMMS-UFSC), Fernando Hartmann Barazzetti (LBMMS-UFSC), Ana Paula Christoff (BiomeHub), Luiz Felipe Valter de Oliveira Dóris de Oliveira (BiomeHub), Maria Luiza Bazzo (LBMMS- UFSC), Glauber Wagner (Laboratório de Bioinformática da UFSC), Marta Hernández (Seção de Microbiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Burgos) e David Rodríguez-Lázaro (Seção de Microbiologia da Universidade de Burgos).

Fonte: ElPaís España. Traduzido do espanhol. Publicado em 03 de julho de 2020. Link para original: https://bit.ly/2ZR8bni


Espanha inicia rastreamento urgente de esgoto e outras águas para detectar coronavírus

Análises priorizam coletores de hospitais, áreas turísticas e aeroportos

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A falta de tratamentos eficazes e vacinas coronavírus, o fim do estado de alarme e a transmissão do vírus por pessoas que não têm sintomas reduz a capacidade de vigilância e controle dos sistemas epidemiológicos convencionais. Por essas razões, e tendo em vista a eficácia dos experimentos iniciados em Valência e outras cidades, o Ministério da Transição Ecológica encomendou à empresa pública Tragsa a realização de análises urgentes para "o controle da presença de contaminação microbiológica em águas interiores, em especial em terrenos baldios urbanos e áreas de banho, a fim de identificar a presença do vírus SARS-CoV-2".

De acordo com os requisitos técnicos do Ministério da Transição Ecológica, a campanha de detecção de coronavírus, que tem um orçamento de 1.988.165 euros, tem dados das estações de tratamento de águas residuais de "todos os distritos da bacia hidrográfica espanhola" e dá prioridade àqueles que "contêm efluentes de hospitais, áreas turísticas ou aeroportos".

O trabalho é baseado em pesquisas já realizadas que mostram "como uma concentração do vírus em águas residuais antes de seu tratamento pode ser um importante indicador de possível recrescimento da doença". Embora não haja evidências de que o vírus mantenha sua capacidade de infecção em águas já tratadas, a especificação comissionada à empresa pública Tragsa considera necessária "análise do uso de água regenerada nesses municípios com tratamentos de purificação insuficientes ou em seções de rios, lagos ou reservatórios que possam ser utilizados para banho".

"Áreas de banho com alto potencial de usuário foram selecionadas para estudar os possíveis efeitos nessas águas do vírus. Este estudo é complementar ao controle das estações de tratamento de esgoto, para reforçar uma avaliação adequada do risco existente", explica o ministério.

O programa, que também inclui outros ministérios, se somará aos dados já fornecidos pelas companhias de água aqueles obtidos nos novos pontos amostrais, que "estão sendo finalizados e devem começar a fornecer informações no início de julho". Não só se concentrará na detecção de indicadores diretos de coronavírus, mas também analisará a presença de colifagos somáticos e E.coli, bactérias que são indicadores de contaminação fecal. O controle da E.coli é comum para "caracterizar melhor as águas", mas o ministério acrescenta que, "neste caso, além disso, servirá para buscar uma possível relação com o trabalho das estações de tratamento de esgoto". Um estudo recente da Universidade de Harvard usou pesquisas online sobre diarreia para adicionar a outros parâmetros como uma possível indicação de um foco de coronavírus.

Mais pistas

A seleção das áreas de teste prioritários será feita "dependendo do grau de contágios do coronavírus e do risco de novos surtos". Da mesma forma, além dos indicadores acima (traços de coronavírus, colifagos e E.coli), outros parâmetros que possam estar relacionados ao coronavírus ou identificar a fonte de novos casos serão adicionados.

"Para garantir um retorno ao novo normal, é essencial iniciar esses trabalhos o mais rápido possível", alerta o ministério nas especificações com as quais designa a empresa pública Tragsa para a realização imediata da campanha de análise. O secretário de Estado do Meio Ambiente, Hugo Alfonso Morán, confirmou que a ordem já é efetiva.

Morán explicou que a rede acrescenta, às estações que já estão rastreando, dados de dois ou três pontos estratégicos que cada comunidade autônoma aponta. "Uma análise será realizada toda semana e queremos prolongar os testes por nove meses", diz Morán.

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Várias capitais e comunidades espanholas, como Barcelona, Valência, Sevilha, Múrcia, Navarra ou Astúrias, já realizaram estudos de água para rastrear o coronavírus. Embora a Organização Mundial da Saúde e o Conselho Superior de Pesquisa Científica já tenham afirmado que o patógeno não sobrevive em estações de tratamento de esgoto ou é transmitido através de sistemas de esgoto, com ou sem tratamento, o SARS-CoV-2 deixa vestígios de sua presença em águas residuais, como muitos outros vírus. Esta pegada não tem capacidade de infecção pelo tipo de envoltório do novo coronavírus, o que o torna menos estável no ambiente e mais suscetível a tratamentos de desinfecção. Assim, comparando com patógenos mais resistentes, como entéricos humanos com transmissão conhecida pela água (adenovírus, norovírus, rotavírus e hepatite A), o coronavírus é sensível ao aumento da temperatura, baixo PH, radiação ultravioleta e desinfetantes comuns.

"O interesse em estudar águas residuais é que é uma ferramenta muito boa para a realização de estudos epidemiológicos, determinando o grau de prevalência do coronavírus e prevendo possível reaparecimento da doença", afirma o gerente da Associação dos Operadores Públicos de Água(Aeopas), Luis Babiano, que convocou na próxima terça-feira uma reunião sobre gestão do coronavírus em sistemas de saneamento e purificação.

Segundo Babiano, "o compromisso dos gestores públicos com a saúde tem sido redobrado com a utilidade das análises hídricas para o monitoramento epidemiológico e controle da atual pandemia". "Podemos avaliar o estado atual e a evolução desenvolvendo um mapa epidemiológico que combina nossos resultados com os de diagnósticos clínicos e outros indicadores de interesse, como socioeconômico e ambiental", explica.

O caso de Sevilha

Em 11 de março, pouco antes do início da decretação pelo Governo central do Estado de Alarme na Espanha, apenas uma dúzia de casos de coronavírus haviam sido registrados na província de Sevilha, de acordo com os controles epidemiológicos da Saúde. "No entanto, já tínhamos detectado a presença do vírus em toda a região metropolitana", diz Jaime Palop, diretor-presidente da companhia de água da cidade e de 11 municípios(Emasesa), que atende 16% da população andaluza. "No momento, não está detectado em nenhum dos 52 pontos de análise", diz Palop.

"O coronavírus nos levou adiante. Costumávamos focar na gestão, sistemas mais eficazes e econômicos, mas a pandemia nos deu uma nova visão sobre como podemos agir em áreas de saúde e qualidade de vida", explica o gerente."

Nesse sentido, Palop afirma que já existe um projeto de pesquisa com a Universidade de Córdoba para analisar possíveis mutações do vírus e outros patógenos que possam surgir: "Vamos deixar a rede de monitoramento ativa porque o esgoto tem se mostrado um termômetro da saúde da população".

Fonte: El País España. Traduzido do español. Publicado em 20 de junho de 2020. Link para original: https://bit.ly/323yR6Y

Investimento cai e universalização do saneamento no Brasil deve atrasar três décadas

Quase metade dos brasileiros não é atendida por serviço de coleta de esgoto

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Prevista pelo governo federal para ocorrer em 2033, a universalização do saneamento básico - um direito fundamental - deve atrasar por pelo menos três décadas, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria). Essa estimativa leva em conta o ritmo de investimentos na área, que vêm caindo nos últimos anos.

No Brasil, segundo o SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), apenas 83,6% dos brasileiros são abastecidos por rede de água e 53,2% têm o esgoto coletado (mas somente 46%, tratado). Em números absolutos, são 34 milhões de pessoas que vivem sem água e quase 100 milhões sem esgoto em todo o país.

Pelo plano ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), da ONU (Organização das Nações Unidas), a universalização do serviço deveria ocorrer até 2030. Entretanto, o Plansab (Plano Nacional de Saneamento Básico) - feito em 2013 e atualizado em 2018 — só prevê isso em 2033. Mas, segundo a CNI, nenhuma dessas datas deve ser alcançada.

O SNIS indica que houve uma queda nos investimentos entre 2015 e 2017. No último ano desse período, foram gastos R$ 11,8 bilhões - o menor valor em dez anos. Em 2018, esse valor subiu e alcançou R$ 13,6 bilhões, mas ainda abaixo de valores como em 2014, quando houve o maior investimento da década: R$ 16,3 bilhões. Todos os valores estão corrigidos para maio de 2020 pelo IPCA. Os dados de 2019 ainda não foram divulgados.

E, com essas quedas, a confederação das indústrias prevê que o acesso universal deve ficar para a década de 2060.

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A estimativa de gastos para se alcançar a meta de universalização do saneamento, de acordo com o MDR (Ministério do Desenvolvimento Regional), é de "aproximadamente R$ 598 bilhões, entre recursos federais e de outros agentes".

Acompanhamento

A meta da ONU pede que, até 2030, o país alcance o acesso universal à água potável, segura e acessível para todos. O cumprimento do plano ODS (ao todo, são 17 metas para "mudar o mundo") é acompanhado no Brasil pelo Grupo de Trabalho da Agenda 2030, formado por entidades civis. Esse grupo produz anualmente um relatório sobre os projetos que levam ao alcance das metas.

Segundo Guilherme Checco, coordenador de pesquisa do Instituto Democracia e Sustentabilidade e que integra o grupo de trabalho referente ao saneamento, o investimento em água e esgoto vem diminuindo de forma progressiva e o novo marco legal aprovado no Senado não deve mudar esse cenário.

"Uma importante reflexão no debate sobre o novo marco legal é que haverá uma maior participação dos operadores privados. Ok, isso é bem-vindo; mas não pode mascarar - como vem ocorrendo - o papel central dos investimentos públicos. Aumentar a possibilidade dos recursos privados não vai resolver o problema do país nesse setor. É preciso delegar para que todos façam esses investimentos, e precisamos de um debate sério sobre o papel do investimento público até alcançar essa meta" afirma.

Para Checco, é necessário que o planejamento leve em conta fatores como o crescimento populacional, o processo de aceleração da urbanização e as mudanças climáticas. "Essas mudanças, por exemplo, alteram o ciclo hidrológico, operam alterações em chuvas", pontua.

O novo marco legal, de acordo com o coordenador, é um ponto histórico, mas falha porque “repete o modelo que vem operando desde a década de 1960". "É um modelo bastante predatório. Ele opera do cano para frente, da captação para frente. Tudo para trás ele não considera. E assim ele traz água cada vez mais de longe. O marco ignora também os fatores socioambientais no debate de agora”, afirma.

Para ele, o que falta é tratar o acesso à água e ao esgoto como direito humano. "Na prática, significa que o estado - os países, no caso - têm obrigação de fazer com que essas condições ocorram de forma progressiva. Todo ano tem de melhorar um pouquinho. A situação do Brasil é drástica, não estamos avançando em um ritmo desejado. Alguns estados estão estagnados ano a ano, a melhoria é muito lenta. Essa política impacta na qualidade da vida das pessoas, e é um impacto muito direto. A gente já vem afirmando que o Brasil está muito aquém do necessário", afirma.

Previsão do governo

O MDR disse que a versão mais recente do Plansab também atualizou a necessidade de investimentos para a universalização do saneamento. Uma nova revisão quadrienal do plano está prevista para 2022 - "ocasião em que o Governo Federal deve ajustar o planejamento em face do novo cenário", diz a nota enviada pelo ministério.

O MDR afirma que o plano prevê a "ampliação gradual do acesso aos serviços de saneamento básico em seus quatro componentes (abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem e manejo das águas pluviais urbanas)". "Nesse intuito, o plano contém previsão da necessidade de investimentos, além de diretrizes, estratégias e programas com as ações a serem empreendidas para o alcance das metas estabelecidas. No referido cenário de planejamento, que considerou o contexto político-econômico-institucional do país, foram previstos significativos avanços do acesso. Porém, nem todos os componentes devem ser universalizados em todas as macrorregiões do país", informa a pasta.

Apesar disso, o ministério ainda coloca a previsão da universalização até 2033, para serviços como o abastecimento de água nos domicílios urbanos, a coleta direta ou indireta de resíduos sólidos nas cidades e o encerramento de lixões e "vazadouros a céu aberto", que recebem os resíduos de maneira inadequada.

A nota do MDR não informa o valor que será gasto em saneamento este ano.

Fonte: UOL. Publicado em 9 de julho de 2020. Link para original: https://bit.ly/2ZZ5Nea


Boletim Especial Resag n° 34




Ganhador do Prêmio Nobel de Economia 2019: "Sim, crescemos economicamente, mas as pessoas morrem por falta de acesso a água potável."


Um dos vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2019 por seu trabalho sobre a pobreza está confiante de que o prêmio fortalecerá a pesquisa sobre a economia do desenvolvimento.

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(Imagem: Michael Kremer, num momento da sua intervenção)

Especializou-se em estudos sociais na universidade e acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Economia por sua pesquisa sobre pobreza e desenvolvimento. Como chegou até aqui? Questionado na quarta-feira passada sobre seus começos neste campo, em uma palestra no Center for Global Development em Washington, Michael Kremer (Nova York, 1964) cita sua convicção: "Temos uma obrigação moral, quando há pessoas que estão sofrendo e até morrendo e há algo que podemos fazer sobre isso, para nos envolver.

Agora, Kremer espera que o prestigioso prêmio, que recebeu junto com Abhijit Banerjee (Bombaim, 1961) e Esther Duflo (Paris, 1972), contribua para fortalecer os estudos e aplicações práticas da economia do desenvolvimento, na qual é considerado um pioneiro. "Sim, queremos crescimento econômico e é a coisa mais importante no longo prazo, não há dúvida sobre isso", diz ele. "Mas, entretanto, as pessoas estão morrendo porque não têm acesso a água potável. E é aí que a economia do desenvolvimento prioriza a atuação agora.

O economista norte-americano, professor da Universidade de Harvard e pesquisador não residente do Center for Global Development (entre outras entidades), aprofunda seu exemplo sobre água: "Primeiro pensamos em proteger nascentes, melhorar a infraestrutura. Mas não foi suficiente. As contagens de bactérias E. Coli (que podem causar diarreia e infecções respiratórias e urinárias, entre outras doenças) diminuíram na origem, mas aumentaram em casa. A água ficou contaminada novamente.

A solução? Em vez de vender pequenos recipientes com tratamento para as casas, decidiram instalar recipientes públicos em pontos de distribuição de água, para que o produto pudesse ser repartido diretamente nesse mesmo ponto. As taxas de tratamento aumentaram, segundo Kremer, de 7% para 50%.

Apesar de advertir sobre sua grande dificuldade, Kremer enfatiza a importância de traduzir os resultados teóricos em prática.

"Trata-se de aplicar conhecimentos gerais à realidade e analisar o impacto", resume o economista. "Não estou dizendo que vão transformar o Quênia em Cingapura, mas talvez muitas coisas pequenas, junto com algumas grandes, transformem o Quênia em Cingapura, e cada uma delas ajuda", diz ele.

Essa ligação entre teoria e prática é o que ele planeja continuar a fazer. Entre as ideias que o entusiasmam, ele destaca o desenvolvimento digital e o crescente envolvimento de pesquisadores de países em desenvolvimento. Sempre com a economia como instrumento e "fim em si mesmo", assim como - "um fim muito importante em si mesmo" - ele define a necessidade de "abordar os problemas práticos do mundo e, particularmente, o terrível problema da pobreza".

Traduzido do Espanhol. Notícia publicada em novembro de 2019. Disponível em http://bit.ly/2WUKxUU




A história das crianças Kothapalli estudando a mudança climática e aprendendo a capturar a chuva


Este pequeno vilarejo indiano conseguiu superar seus problemas de água com a ajuda de uma estação meteorológica instalada na escola e administrada pelos alunos.

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(Imagem: O estudante Vamshi Voggu registra dados de uma estação de medição automática de água em uma parede fora da Kothapally High School, Índia, em 31 de julho de 2019)

A escola na aldeia de Kothapalli, no sul da Índia, tem muito poucos recursos: quadros, mesas, cadeiras e um pátio com um banco de madeira debaixo de uma árvore. No entanto, tem um recurso raro: uma estação meteorológica automática. O centro, aninhado entre as casas dos agricultores, é a única escola pública no estado indiano de Telangana, e possivelmente em todo o país, com uma dessas ferramentas em suas instalações, dizem os cientistas encarregados de supervisioná-la.

Alunos do ensino secundário, todos filhos de agricultores locais, registram a precipitação, a humidade, a velocidade do vento e a temperatura do ar como parte de um projeto maior gerido por um instituto internacional de investigação agrícola que visa adaptar a agricultura da aldeia à água disponível.

"Eu entendo como funciona. Sei que se o dia anterior já foi suficientemente chuvoso, é uma boa hora para fertilizar as plantações", diz Vamshi Voggu, 14 anos, um estudante que não gosta muito de aulas de ciências, mas que gosta de monitorar as condições climáticas na escola pela manhã. "Meus pais são agricultores e essa informação os ajuda", acrescenta ele durante um intervalo entre as aulas, enquanto seus amigos sorridentes interrompem para dizer o quanto os aldeões se beneficiam do dispositivo.

Há duas décadas, Kothapalli enfrentou uma grave crise de abastecimento de água. Os recursos disponíveis eram insuficientes para irrigar os campos ou para beber, e as mulheres tinham de caminhar quilómetros para ir buscar água. Os camponeses relatam que quase metade das crianças não estavam na escola, e muitas delas cuidavam do gado para complementar a renda familiar. Mais ou menos ao mesmo tempo, funcionários de um escritório do Instituto Internacional de Pesquisas Agrícolas para os Trópicos Semi-Áridos (ICRISAT), a cerca de 60 quilômetros de Kothapalli, estavam planejando replicar um projeto de gerenciamento de bacia hidrográfica testado em laboratório em uma vila.

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(Imagem: O aluno Vamshi Voggu verifica a estação meteorológica instalada na escola em Kothapalli, Índia)

Um político local chamou atenção para a falta de água na aldeia. O projeto, que trouxe locais para captação de água da chuva, barragens, barragens agrícolas e estação meteorológica, resultou em safras abundantes nos últimos anos. Além disso, o nível do lençol freático aumentou cerca de quatro metros e a agricultura está cada vez mais em sintonia com a precipitação. Embora nos últimos anos a luta pela água na Índia tenha se intensificado, e em muitas cidades e vilas este precioso recurso esteja a ponto de ser esgotado, Kothapalli continua a flutuar.

Kothapally tornou-se um laboratório de experiências para a mudança social.

"O número de dias de chuva na área está diminuindo, o que significa períodos de seca mais longos e mais chuvas em um dia", explica o agro-climatologista Kesava Rao, membro honorário da ICRISAT em Hyderabad. Com a alteração dos padrões climáticos e a melhoria do acesso às águas subterrâneas, as práticas agrícolas tradicionais da Kothapalli mudaram. Os campos de algodão foram diversificados para incluir espécies eficientes em termos de água, tais como sorgo, milho, feijão bóer, legumes e flores. O registo, pela primeira vez, da precipitação recebida pela aldeia também forneceu indicadores chave da humidade do solo para ajudar a planejar os padrões de cultivo, acrescenta Rao.

Inicialmente, os cientistas do ICRISAT visitavam a estação meteorológica uma vez por mês para fazer as leituras, diz ele. "Mas tivemos a ideia de envolver a comunidade, por isso mudamos a instalação para a escola há uma década. Todos os anos treinamos as crianças durante dois dias para fazer as leituras. Agora os alunos estão orgulhosos do que têm na escola", explica o especialista.

Trabalho matinal

Quando, há quatro anos, Binkam Sudhakar chegou ao Instituto Kothapalli para assumir o cargo de diretor, ele nunca tinha visto uma estação meteorológica. Agora ele acha que é a melhor ferramenta do centro para ensinar lições práticas sobre mudança climática, muito diferente do método de memorização usado no sistema de educação indiano.

Todas as manhãs, antes da reunião da escola, dois alunos vão à estação com um caderno e um lápis, puxam o monitor em forma de telefone celular e verificam os registos de chuva e temperatura apertando alguns botões. Em seguida, anotam as medidas na carta de tempo multicolorida pintada na parede exterior da escola.

Os agricultores locais dizem que as informações diárias são uma grande ajuda para eles. "É muito importante. No caminho para o trabalho, vemos aqui quanta chuva caiu", diz Voggu Anjaiah, 50 anos, que possui 2,5 hectares de terra e consulta os valores registrados todos os dias. "Cultivo algodão, melão amargo e feijão verde. Antes, só tinha algodão. Não sabíamos o quanto estava chovendo realmente. Agora também sabemos quando a umidade do solo é adequada, então começamos a cultivar vegetais", explica ele.

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(Imagem: Vamshi Voggu e Gurulingam Goud, anotam os registros da estação meteorológica instalada em sua escola)

No entanto, como muitos agricultores da aldeia são analfabetos, menos da metade consulta os registros da estação, como faz Anjaiah. Há crianças que lêem em voz alta as informações do quadro para seus pais, que nunca foram à escola. Outros relatam notícias importantes quando voltam para casa depois da escola, por exemplo, se choveu muito no dia anterior. Os jovens "homens e mulheres do tempo" pensam que estão envolvidos numa tarefa importante. "Nunca perco a minha vez", diz o Vamshi.

Um giro radical

Quando Venkat Reddy, da organização de direitos das crianças Mamidipudi Venkatarangaiya, visitou Kothapalli pela primeira vez em 1991, ela viu grandes extensões de terra seca e crianças trabalhando como trabalhadores. Depois de quatro anos, depois de várias campanhas intensivas envolvendo jovens que iam de porta em porta incitando pais, empresários e funcionários do conselho da aldeia a enviar crianças à escola, Kothapalli foi declarada um município sem trabalho infantil pelo governo local.

"Toda a aldeia se uniu em defesa dos seus filhos", diz Reddy por telefone da cidade de Hyderabad, no sul do país. O número de alunos na escola primária da aldeia aumentou, e agora há alunos suficientes que continuaram a sua educação para ter um colégio que também oferece aulas até ao quarto ano do ensino secundário.

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(Imagem: Razia Begum e seu marido Mohammad Sarvar em sua fazenda em Kothapalli)

À medida que mais estudantes se matriculavam na escola, as medições das estações meteorológicas tornaram-se acessíveis a mais agricultores. "Os meus pais nunca lucraram da agricultura. Éramos muito pobres. Eles me tiraram da escola depois da quarta série", lembra Malleshwar Goud, cujo filho de 13 anos, Gurulingam, está na terceira série da escola secundária local. Goud cultiva leguminosas, soja, milho e vegetais em sua terra, e diz que não depende mais de uma única colheita para sobreviver durante todo o ano. Ele nunca consulta os dados meteorológicos, pois seu filho o informa das medidas quando ele retorna da escola.

Ativistas e cientistas reconhecem que, mesmo que ninguém o tenha planejado, Kothapalli se tornou um laboratório de experimentos para a mudança social. De acordo com Reddy da Fundação Mamidipudi Venkatarangaiya, sua organização replicou a campanha de Kothapalli para acabar com o trabalho infantil nas aldeias do Estado de Telangana e na vizinha Andhra Pradesh, enquanto o ICRISAT estendeu seu inovador projeto de gestão a 13 aldeias em diferentes estados do país. Enquanto isso, Goud espera que o bom treinamento e a melhoria da produtividade das colheitas ao longo do ano protejam o futuro de seu filho. "Ele vai continuar a estudar até encontrar um bom emprego", diz o agricultor.

Traduzido do Espanhol. Publicado em setembro de 2019. Disponível em: http://bit.ly/32uBQ59




Chile enfrenta a pior seca de sua história


Estima-se que pelo menos 10.000 animais tenham morrido por falta de água nas seis regiões especialmente afetadas

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(Imagem: A lagoa do Aculeo, outrora uma atração turística, sem água devido à seca)

Seis regiões do centro do Chile, onde se concentra quase 80% da população, enfrentam uma crise hídrica sem precedentes, pelo menos desde que houve registros. A falta de água é óbvia para qualquer um. Qualquer pessoa acostumada a voar para Santiago percebe que o deserto parece ter avançado do norte para a capital. Os cidadãos comentam em suas redes sociais. Bárbara Fuentes, uma acadêmica chilena, postou há algumas semanas uma foto de um de seus filhos tirada em 22 de setembro de 2013 e uma idêntica tirada em 22 de setembro de 2019. A colina na área de Chicureo, na Região Metropolitana, deixou de ter grama verde na primavera em seis anos e só tem terra seca e espinhos.

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(Fotografia de Bárbara Fuentes)

O país está entrando nos meses quentes e o presidente chileno, Sebastián Piñera, definiu esta seca como "um terremoto silencioso". Estima-se que pelo menos dez mil animais tenham morrido por falta de água entre as seis regiões mais afetadas: de norte a sul, Atacama, Coquimbo, Valparaíso, Metropolitana, O’Higgins e Maule. As autoridades emitiram 14 decretos de escassez de água para 126 dos 346 municípios do país e seis declarações de emergência agrícola que afetam 119 municípios. Em Coquimbo e Valparaíso - a região onde nasceu a poetisa Gabriela Mistral e a do famoso porto, respectivamente - foi declarada uma zona de catástrofe.

"Temos uma seca muito profunda, como nunca tivemos antes, o que nos causa problemas e nos preocupa", disse o ministro de Obras Públicas Alfredo Moreno, líder do Conselho Nacional da Água, órgão apresentado nesta quarta-feira pelo governo chileno para enfrentar a crise. De acordo com Moreno, "de imediato é necessário ajudar os afetados - áreas rurais, pequenos agricultores - mas no médio e longo prazo devemos ter as obras necessárias para o novo nível da água. "Este desafio é semelhante a reconstruir o país após um terremoto", reflete.

Estas grandes secas podem ser explicadas por várias razões. "É uma espécie de tempestade perfeita", diz o engenheiro Rodrigo Fuster, acadêmico do Departamento de Ciências Ambientais e Recursos Naturais Renováveis da Universidade do Chile. Começando com o clima: "Uma parte importante do Chile tem experimentado níveis de precipitação abaixo do normal durante 11 anos consecutivos. Historicamente, como há registros, isso não havia acontecido", diz Fuster.

Segundo o Centro de Ciência do Clima e Resiliência da Universidade do Chile, essa grande seca em um terço pode ser atribuída à mudança climática de origem antropocêntrica. "Independentemente da variabilidade climática - a precipitação do próximo ano, por exemplo, e esquecendo a seca imediata - o fenômeno do aquecimento marca uma tendência no centro do Chile", explica Fuster. Como as temperaturas médias são mais altas e pouca precipitação se acumula nos Andes em altitudes mais altas do que antes, é inevitável pensar que o Chile terá menor capacidade de água nos rios que dependem do derretimento da neve na cordilheira. Há uma semana, a Direção Geral de Água (DGA) publicou seu relatório anual de previsões de vazão para a temporada de irrigação, de setembro a março de 2020: "É um dos mais baixos da história", diz o engenheiro.

A região do Atacama, no norte, tem um déficit de 99% em relação à média histórica de chuvas entre 1981 e 2010. As grandes barragens têm pouca acumulação: Yeso, na capital chilena, está a 50% de sua capacidade.

Privatização da água

A Administração Pública do Chile não parece ser suficiente para enfrentar a seca, considerando que é um dos países do planeta com o mercado de água menos regulado. "O fato de que o direito de usar a água é privado vai de mãos dadas com o fato de que o Estado tem poucos poderes para tomar decisões sobre sua gestão", explica Fuster. Para o deputado Diego Ibáñez, representante de um distrito da região de Valparaíso especialmente afetada pela crise da água, "o Estado não se encarrega da desigualdade estrutural gestada pelo Código de Águas do Chile, que remonta à ditadura de Pinochet e privatizou o bem comum". "Atualmente, quem tem a maior capacidade de pagar pelos direitos à água controla a bacia hidrográfica. A natureza no Chile está organizada como uma corporação", diz o parlamentar da oposição.

Ibáñez relata o que observa nos lugares que representa: "No momento, há uma morte massiva de milhares de animais - cabras, gado - em Cabildo, Alicahue, Putaendo, Santa Maria, Calle Larga e, portanto, uma migração de pessoas das áreas rurais mais pobres para outros lugares onde esperam ter melhores condições de vida.

Há algumas semanas, o governo chileno lançou um plano de emergência para 2019 e 2020. Procura fornecer água potável urbana e rural para consumo humano e agricultura. Em um país como o Chile, onde quase 1,5 milhão de pessoas vivem em uma casa sem água potável - o que equivale a cerca de 8% da população - o plano prevê o reforço de caminhões cisterna destinados ao abastecimento de sistemas rurais de água potável. Ao entrar na primavera-verão, estão previstos meses complexos para grande parte do país, especialmente para aqueles que não vivem nas grandes cidades e têm menos recursos.

O Presidente Piñera pretende fazer progressos concretos na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que ocorreria no Chile em Dezembro (transferida para Madrid), na COP25. Mas parece um desafio complexo: vários relatórios internacionais alertaram sobre a situação no Chile. O ranking mundial de estresse hídrico do World Resources Institute, divulgado em agosto, por exemplo, identifica os 17 países com risco extremamente alto de escassez de água, como Qatar, Israel e Irã. O Chile está em 18º lugar, classificado entre os de alto risco, mas perto do grupo mais sério. O outro país latino-americano que aparece é o México, que ocupa o 24º lugar.

Traduzido do Espanhol e atualizado em novembro de 2019. Disponível em: http://bit.ly/2NwQDrM




40% do País apresenta nível moderado ou alto de ameaça aos corpos hídricos


As principais ameaças às águas no País são as mudanças climáticas, as mudanças no uso do solo, a fragmentação de ecossistemas e a poluição, de acordo com relatório do Painel Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos

Cerca de 40% do território nacional apresenta níveis de ameaça aos corpos hídricos que vão de moderado a elevado. E o Estado de São Paulo é o que está em pior condições. É o que mostra um relatório divulgado nesta quinta-feira, 8, pelo Painel Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

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(Imagem: Anos de seca prolongada nas regiões Sudeste (na foto, o sistema Cantareira) e Centro-Oeste levaram a uma perda estimada de R$ 20 bilhões na receita agrícola em 2015. Crédito: Sergio Castro / Estadão)

A região Sudeste, que abriga 58% da população e apenas 13% da disponibilidade de água do País, apresenta um cenário delicado. Pelo levantamento, quase 70% do território de São Paulo está em situação crítica por conta do adensamento populacional e o intenso uso da terra associado à agricultura.

O indicador usado para fazer essa análise é o impacto sobre a biodiversidade que vive nesses ambientes aquáticos. Segundo o trabalho, o Brasil abriga mais de 3 mil espécies de peixes de água doce. Só na Bacia Amazônica estima-se que haja mais espécies de peixes do que em todo o oceano Atlântico.

Mas essa biodiversidade está em risco: 10% das espécies de peixes continentais estão sob o risco de extinção e 30% do total de espécies da fauna ameaçada no Brasil compreendem peixes e invertebrados de água doce. Estima-se que até 2050, a Bacia Amazônica e o extremo sul do País terão uma perda de mais de 25% nas espécies aquáticas.

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(Gráfico do relatório Água, Biodiversidade, Serviços Ecossistêmicos e Bem-estar Humano no Brasil do BPBES)

"Consideramos 23 ameaças (como desmatamento, uso de fertilizantes, presença de hidrelétricas, segurança hídrica, espécies invasoras, perdas no sistema, ocorrência de secas e inundações) à biodiversidade", explicou ao Estado Aliny Pires, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e coordenadora do estudo.

"Se a gente pensa que uma água de qualidade depende de que todo o sistema aquático esteja funcionando adequadamente, se a água não está boa para a biodiversidade, também não estará adequada para o consumo humano", afirmou a pesquisadora.

"A biodiversidade ajuda a indicar a qualidade daquele ecossistema. Quando dizemos que em 40% das águas a biodiversidade está ameaçada, isso também indica que 40% das águas estão ameaçadas como um todo. É uma questão integradora", complementou o pesquisador Vinicius Farjalla, da UFRJ e também autor do trabalho.

"Não se olha só para a qualidade ou para a quantidade de água. Quando se olha de maneira mais integrada - é daí que vem o conceito do sustentável -, temos de trabalhar com todos esses componentes. A biodiversidade é mais um grande indicador do uso sustentável, da qualidade daquele ambiente de maneira mais integrada", disse.

De acordo com o trabalho, cerca de 98% dos municípios do Nordeste já reportaram eventos de seca. E no Sul do País, 92% dos municípios já reportaram eventos de inundação.

Aliny lembra, porém, que mesmo em regiões onde a quantidade de água não é um problema aparente, como os Estados amazônicos - que respondem por 68% da disponibilidade hídrica do País para 7% da população, a situação não é tão simples, já que há altas taxas de perda no fornecimento.

Impactos econômicos

Feita em conjunto por 17 pesquisadores de diversas instituições do País, a avaliação aponta que se por um lado os recursos hídricos são fundamentais para a economia brasileira, por outro, cenários de escassez já trazem prejuízos significativos.

O relatório aponta que o País ganhou mais de R$ 15 bilhões por ano, entre 2004 e 2016, com os investimentos realizados em saneamento, incluindo a promoção do turismo e a redução com gastos em saúde. A pesca esportiva movimenta até R$ 3 bilhões por ano no País. Só os recursos pesqueiros sustentam cerca de 300 mil pescadores artesanais.

Nossos recursos hídricos são fundamentais para a energia do País. A matriz elétrica depende de cerca de 65% da produção hidrelétrica.

A agricultura irrigada e a pecuária são os principais usuários dos recursos hídricos do País, consumindo, respectivamente, cerca de 750 mil e 125 mil litros de água por segundo. A maior parte (85%) da produção agropecuária depende da água das chuvas, originada em 40% na evapotranspiração da Amazônia.

O estudo destaca ainda que somente no ano passado, o Brasil exportou 84 milhões de toneladas de soja, o que corresponde a 8,4 trilhões de litros de água.

Por outro lado, a seca recente que afetou as regiões Sudeste e Centro-Oeste, por exemplo, provocou uma perda de cerca de R$ 20 bilhões na receita agrícola em 2015, um recuo de quase 7% em relação ao ano anterior.

Para o futuro, levando em conta o aumento da demando por crescimento da população, as perdas do sistema e impactos climáticos, se não houver investimentos em infraestrutura, faltará água para 74 milhões de pessoas até 2035, com impacto em vários setores produtivos, em especial a indústria, que pode sofrer 84% das perdas econômicas previstas.

Notícia publicada em agosto de 2019. Disponível em http://bit.ly/2pKrvon




O Rio Colorado vai secando


Sete estados americanos assinam um tratado para usar menos água do que o caudal sobre-explorado do rio, cujo volume é inexoravelmente reduzido.

A família Gripentog vive na linha da frente da mudança climática. Eles possuem o Lake Mead Marina, uma marina no Lake Mead, o maior reservatório dos Estados Unidos, que forma o Rio Colorado perto de Las Vegas. Gail Gripentog controla diariamente o nível da água do lago e, uma vez por mês, estuda as projeções científicas para daqui a um ano. Para ela é o seu modo de vida e cada vez que o nível sobe ou desce tem consequências económicas imediatas. Para sete estados americanos e dois estados mexicanos, esse nível é também uma medida da sustentabilidade de seu modo de vida. A bacia hidrográfica tem estado em seca técnica há 19 anos e o rio vai diminuindo seu nível.

Na última segunda-feira, os sete estados que bebem da Bacia do Colorado (Wyoming, Utah, Colorado, Califórnia, Novo México, Arizona e Nevada) ratificaram um acordo comprometendo-se a reduzir seu consumo de água e aplicar cortes se a situação de seca continuar. O chamado Plano de Contingência de Seca é um acordo descrito como histórico e motivado pela urgência ao ver que a atual utilização do rio não é sustentável já que este continua a diminuir. Entre o crescimento da população e as alterações climáticas, essa é uma possibilidade muito real. "Não é salvação, mas nos dá um pouco de tempo", diz Brad Udall, cientista do Instituto de Água do Colorado da Universidade do Colorado e um dos principais especialistas sobre o impacto do clima na bacia hidrográfica.

O Rio Colorado começa em Wyoming, percorre 2.300 quilômetros, fornece água a 40 milhões de pessoas, rega 1,8 milhão de hectares de plantações, gera 4.200 megawatts de eletricidade, atravessa a fronteira e termina no deserto de Sonoran. É um rio pequeno comparado com outros rios dos Estados Unidos. Sua vazão média histórica é de 18.500 milhões de metros cúbicos. O rio Columbia tem 320.000 milhões. O Mississippi, quase 500.000. Mas a domesticação do Rio Colorado é em grande parte a história do oeste dos Estados Unidos. A expansão de cidades como Las Vegas, Phoenix ou San Diego, até mesmo Los Angeles em parte, foi possível graças às enormes transferências de água. Das torneiras de San Diego vem a neve que caiu nas Montanhas Rochosas, a 1.600 quilômetros da costa. Todo esse sistema está em xeque porque, a determinada altura, o rio não será suficiente.

O Lago Mead foi formado em 1935 com a construção da Barragem Hoover. Ele viveu anos de glória como um destino de férias e estava em plena capacidade na década de 1980 e no final da década de 1990. A partir do ano 2000 começou um período de seca que ainda continua, apesar de um par de anos muito úmidos entre eles. "Se você quiser ver como 40 milhões de pessoas se adaptam à mudança climática, venha ao Colorado", diz John Entsminger, diretor executivo do Las Vegas Water District, a autoridade hídrica de Las Vegas.

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(Imagem: Gail Gripentog na marina que a sua família fundou em 1957)

"Há um déficit estrutural. A quantidade de água que entra no Lago Mead a cada ano é menor do que a quantidade que sai. O que o plano que assinamos faz é equilibrar as coisas se as condições de seca continuarem", explica Entsminger. Setenta e seis por cento de Nevada e 90 por cento de Las Vegas dependem do Lago Mead para água e energia. "Ninguém está mais em risco do que nós. Queremos torná-lo sustentável para hoje e para os netos dos nossos netos.

A altura da água no Lake Mead na quarta-feira passada foi de 331 metros (1.087 pés). É um pouco acima de 327 (1.075 pés) que é a altura em que os planos de corte teriam que entrar em ação. O lago tem estado em torno desses níveis de perigo desde 2014. Quando a seca começou, perdeu 50% da sua água em quatro anos. Agora está a cerca de 40% da sua capacidade. O Plano de Seca contempla inclusive um cenário catastrófico em que o nível cai para 289 metros e a Represa Hoover não consegue mais gerar energia. Era impensável há uns anos atrás. Já não é mais. Las Vegas, só por precaução, investiu $1,5 bilhão em infraestrutura na última década para tirar água da parte mais baixa do lago.

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(Imagem: Um dos pontos para embarcações que fechou no Lago Mead: "Fechado por causa do baixo nível da água")

"Os primeiros 15 anos deste século foram os mais secos em mil anos", diz David Raff, assessor ambiental do Escritório de Recuperação, órgão federal que administra a bacia do Colorado. "Se compararmos o futuro com o passado distante, tais secas não serão incomuns. As projeções dizem que o próximo século será mais seco e haverá menos água para o Colorado. Este ano, porém, tem sido incomumente húmido, dando esperança de recuperação. "Há muitos fatores que a influenciam. Talvez um ano caia muita neve nas Rochosas, mas à medida que as temperaturas sobem, ela derrete mais cedo e há mais evaporação.

Os Estados têm se preparado há anos para usar menos água. Na verdade, eles não usam toda a sua parte para ajudar a conservar o lago. Patricia Aaron, porta-voz do Escritório de Recuperação, diz que, graças aos esforços de conservação dos Estados, o nível é agora 7,6 metros mais alto. "Essa é a quantidade de água que achamos que não tivemos que usar graças à conservação" dos estados da bacia. "Se entregássemos toda a água que corresponde, iríamos abaixo dos níveis a partir dos quais são necessários cortes. Em outras palavras, se não há mais sacrifícios a fazer, é porque já foram feitos preventivamente, mas esse cenário está mesmo à volta da esquina."

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(Imagem: Represa Hoover, que forma o Lago Mead)

O porto de Lake Mead Marina foi fundado pelos pais de Gail Gripentog em 1957. "O meu pai achava que eu ia pescar demais e trabalhar muito pouco", brinca. Ele estava errado. O lago era um destino turístico popular e em torno dele foi criado um Parque Nacional de Recreação. Gail mostra fotos do lago em capacidade máxima nos anos 80. Tudo mudou depois da atual seca, quando começou a descer a toda velocidade.

Em 2002, a situação tornou-se impossível para os Gripentog. O porto inteiro teve que ser transferido para outra parte do lago porque o lugar original estava secando. Desde então, eles tiveram que ser movidos várias vezes, principalmente para trás. A cada 30 centímetros (1 pé) que o nível do lago cai, a borda da água diminui 6 metros (20 pés). É necessário mover 150 âncoras. Leva um mês para fazer isso, no qual não há renda, e a operação custa a eles cerca de 100.000 dólares cada vez. Houve anos em que tiveram de deslocar o porto inteiro duas vezes.

O lago ainda é gigantesco e ainda vale a pena navegar no meio do deserto. Mas as feridas da seca são claramente visíveis. Áreas inteiras foram definitivamente fechadas. As rampas de lançamento que não levam nenhum lugar ainda lá estão. "Tivemos que investir US$ 40 milhões para ampliar as rampas de lançamento dos barcos", diz Christie Vanover, porta-voz do Lake Mead National Recreation Park. Há até mesmo uma nova atração turística, um antigo assentamento mórmon que foi inundado na década de 1930. Gail Gripentog sonha com um futuro em que a água volte.

"A maioria dos cientistas diria que, com o déficit estrutural da bacia hidrográfica, esse reservatório jamais voltará aos níveis do ano 2000", diz Brad Udall. "Estudos mostram que, historicamente, a causa da seca foi a falta de precipitação. Mas estamos entrando numa era em que só as altas temperaturas por si já causam a seca. Um terço das perdas de água desde 2000 deve-se a temperaturas elevadas. À medida que as alterações climáticas progridem, esse impacto aumentará. Não sabemos o que a natureza vai fazer, mas o longo prazo é muito claro: seca e desertificação."

Traduzido do Espanhol. Notícia publicada em maio de 2019. Disponível em: http://bit.ly/2K0Btc8


Boletim Especial Resag n° 33: Valor da água

E se pararmos de falar de água e começarmos a falar de segurança hídrica?

Resag O Rio Hai Tianjin, China. Imagem: Yang Aijun / Banco Mundial A água estará sempre lá, não a segurança da água. É um conceito mais envolvente que permite aos cidadãos comunicar melhor a complexidade do ciclo hidrológico urbano e torná-los participantes do modelo de gestão, seus benefícios e riscos. Usuários bem informados tornam possível criar o contexto para uma governança participativa e transparente no qual todos nós nos sentimos envolvidos. A segurança hídrica vai além do simples acesso à água e envolve trabalho constante.

Há alguma confusão entre os cidadãos sobre alguns conceitos-chave para a compreensão do escopo e significado do ciclo hidrológico urbano, o que dificulta significativamente o progresso rumo à sua eficácia. Os governos, operadores e todas as instituições envolvidas devem fazer um esforço para informar adequadamente sobre o acesso à água e ao saneamento, que é muito mais complexo do que se pensa popularmente. É complexo, mas não incompreensível, e este é um desafio de comunicação que temos de enfrentar com urgência.

Menos conversa sobre água e mais sobre segurança hídrica?

Uma causa frequente de confusão é a falta de comunicação sobre o conceito de "acesso à água". O enunciado do Direito Humano à Água e ao Saneamento, que foi resolvida em 2010 pela Assembléia Geral das Nações Unidas, teve o efeito colateral que para certos setores da opinião pública a água passou a ser categorizada como "bem público universal", e a estabelecer como premissa para construir qualquer modelo de gestão.

Resag Embora o conceito seja filosoficamente bem intencionado, ele é impreciso, entra em conflito com a realidade e dificulta a construção de uma governança sustentável e resiliente diante do grande desafio da mudança climática, da poluição e dos desequilíbrios demográficos e econômicos que se aproximam.

Diante desta situação de crise global, é muito mais eficaz, como a maioria dos especialistas aponta, falar em termos de "segurança hídrica". A definição mais universalmente aceita do termo é a dos economistas David Grey e Claudia W. Sadoff (2007): "o fornecimento confiável de água quantitativa e qualitativamente aceitável para a saúde, a produção de bens, serviços e meios de subsistência, juntamente com um nível aceitável de riscos relacionados à água". Uma definição que resume adequadamente Andrés Martínez, professor titular da Universidade de Cuenca, como "a capacidade de aproveitar o potencial produtivo da água e limitar seu potencial destrutivo".

A primeira contribuição valiosa da definição é o termo "confiável", que não inclui a mera disponibilidade do recurso, mas exige a eficiência do serviço. Isto permite que as disciplinas associadas à gestão da água sejam atribuídas com maior precisão: meteorologia, climatologia, hidrologia e tecnologias de captação são preferencialmente localizadas na área de disponibilidade; enquanto que o serviço é preferencialmente associado à economia e pode assim ser definido de forma simples e superficialmente como uma indústria.

A introdução da segurança hídrica permite situar os direitos humanos de forma mais abrangente na esfera política, que é onde ela nasceu originalmente: uma resolução que insta os Estados e as organizações internacionais a fornecer recursos financeiros e tecnológicos para alcançar um abastecimento de água potável segura e saneamento que seja saudável, limpo, disponível e acessível para todos; ou seja, a obrigação dos Estados de proporcionar segurança hídrica aos cidadãos e, consequentemente, facilitar a implementação de modelos de gestão eficazes.

Compreender o preço da água

É importante ressaltar aqui que a definição do direito humano à água inclui a de sua acessibilidade: a conta da água não deve exceder 3% do orçamento familiar, segundo a ONU; em outras palavras, e isso se reflete nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, o abastecimento de água tem um custo que deve ser refletido em um "preço".

A água fornecida no ciclo urbano não pode ser gratuita, embora esteja claro que uma governança efetiva deve desenhar uma política de preços que, além de recuperar custos, gere incentivos econômicos que garantam a resiliência financeira do modelo e que, naturalmente, seja justa. O sistema de preços deve também tornar claro o custo ambiental e facilitar a evolução para a economia circular, tendo em conta o custo da luta contra os contaminantes, especialmente os emergentes, que constituem um fator de risco adicional na oferta.

Resag Mover o conceito de bem público da água, como mero recurso, para o conceito da segurança hídrica a ser pago coletivamente, permite uma abordagem mais inclusiva do ciclo urbano para os cidadãos. Ao incluir riscos destrutivos, como secas, inundações e poluição, na concepção de um sistema de preços transparente e consensual, esta variável de risco pode ser transmitida mais claramente aos cidadãos e estes podem tornar-se mais conscientes da realidade do processo de abastecimento. Com um modelo de precificação bem explicado, todos nós também podemos ser participantes das perdas e compreender a vulnerabilidade do acesso à água. Desta forma, podem ser lançadas as bases para uma sociedade mais responsável no uso da água e mais unida numa perspectiva planetária.

No Peru, 62% das pessoas nas zonas rurais e 18% nas zonas urbanas ainda não têm acesso a um saneamento adequado.

Do ponto de vista da segurança hídrica como um bem público bem compreendido pelos cidadãos, a controvérsia sobre a gestão pública, privada ou mista da água perde protagonismo, o que virar a página de uma controvérsia que sempre foi distorcida por ideais políticos de diferentes lados, quando na realidade o que todos precisamos é de um modelo eficiente que garanta a adaptabilidade às vicissitudes da mudança climática, e que facilite o progresso para uma economia circular internacionalizada.

Resag Banheiro público na favela de CiudadPachacutec, Distrito de Ventanilla, Província de El Callao, Peru. Imagem: Monica Tijero / Banco Mundial. Livre da visão limitadora do direito simples de acesso à água pelo direito muito mais aberto à segurança hídrica, o desafio de comunicar bem aos cidadãos não diminui, mas está carregado de conteúdos mais compreensíveis e com maior potencial de alcance. Se explicamos bem o ciclo urbano diferenciado da água, a disponibilidade do recurso, a água antes do tratamento e o processo de abastecimento, poderemos então explicar melhor o papel da climatologia e da meteorologia e erradicar a ideia de que o problema da água se deve apenas à seca. Assim, é possível explicar melhor as instalações e a tecnologia avançada necessárias para o abastecimento, e que estas devem ser garantidas por um modelo de gestão eficiente: devem estar sempre atualizadas para minimizar as perdas, proteger-nos da poluição, salvaguardar o ambiente e responder às crises de escassez. Desta forma, poderemos também compreender melhor os debates sobre o consumo da agricultura, o equilíbrio das bacias hidrográficas e, em suma, a importância da água como gerador de riqueza.

Estamos perante um desafio que temos de enfrentar para avançarmos coletivamente. Somos obrigados a encontrar os conteúdos e os canais de comunicação adequados para sensibilizar os cidadãos para o ciclo hidrológico urbano. Uma cidadania informada facilitará a adoção de modelos de gestão eficazes, pois eles serão propriedade intelectual de todos.

Fonte: Traduzido do espanhol. We are Water Foundation. Publicado em 10 abril de 2019. Disponível https://www.wearewater.org/es/y-si-dejamos-de-hablar-de-agua-y-empezamos-a-hablar-de-seguridad-hidrica_314841

Difíceis de remover, fármacos, cosméticos e outros compostos contaminam recursos hídricos

Os chamados contaminantes emergentes motivaram laboratório da USP em São Carlos a desenvolver técnica para solucionar o problema

Você sabia que a água que você consome em sua casa pode não estar totalmente livre de impurezas? Esse risco existe quando produtos que utilizamos no dia a dia, como remédios, protetores solares e itens de higiene pessoal são encontrados em rios que abastecem municípios. As estações de tratamento de água não conseguem remover completamente esses compostos, já que não possuem equipamentos apropriados para a tarefa. Batizados de contaminantes emergentes, essas substâncias desafiam há anos centenas de cientistas brasileiros a buscarem soluções eficientes e a entenderem os impactos que elas podem causar ao meio ambiente e aos seres vivos.

Resag Segundo o professor Eduardo Bessa Azevedo, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, o Brasil ainda não possui uma legislação que determine quantidades seguras desses contaminantes na água.

"São substâncias encontradas em pequenas concentrações, mas que, se consumidas por anos, podem trazer algum risco", alerta.

Estudos indicam que o lançamento não controlado de fármacos nos corpos d’água pode, por exemplo, gerar o desenvolvimento de microrganismos resistentes a antibióticos. Caso haja a ingestão dessa água contaminada, seres humanos e animais estão sujeitos a problemas como disfunções no sistema endócrino e reprodutivo, além de distúrbios metabólicos. Diversos compostos químicos são capazes de interferir no metabolismo, entre eles, destacam-se os que estão presentes em hormônios, anti-inflamatórios, antidepressivos, hidrocarbonetos poliaromáticos e pesticidas.

A falta de efetividade no combate aos contaminantes emergentes preocupa os cientistas e acende o sinal de alerta na sociedade. "As estações de tratamento d’água (ETAs), basicamente, trabalham para retirar sua turbidez e torná-la potável. Elas têm uma capacidade limitada de remoção desses contaminantes, pois foram projetadas numa época em que não existia essa demanda", explica o docente. De acordo com o Instituto Trata Brasil, quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso ao abastecimento de água tratada. Em 2016, uma em cada sete mulheres do País não tinha acesso à água, enquanto 7,5% das crianças e dos adolescentes não possuíam água filtrada ou vinda de fonte segura.

A ciência entra em cena Resag

Há algumas décadas, pesquisas têm chamado a atenção sobre os possíveis danos que os contaminantes emergentes podem causar aos recursos hídricos, fato que impulsionou o interesse da comunidade científica em busca de soluções para identificação, monitoramento e remoção dessas substâncias. No IQSC, o Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Ambientais (LDTAmb) está envolvido nesse desafio, criando alternativas promissoras. "Diferentemente das tecnologias tradicionais, as quais amenizam o problema da poluição, mas não o resolvem, as pesquisas desenvolvidas em nosso laboratório se preocupam em realmente destruir os contaminantes. Não basta reduzirmos a concentração de determinada substância se ela ainda continua com sua função biológica ativa, podendo trazer algum perigo", afirma o professor Eduardo, que coordena o LDTAmb.

Uma das pesquisas desenvolvidas no Laboratório da USP é a de Maykel Marchetti, doutorando do IQSC. Após realizar um levantamento, o pesquisador descobriu quais eram os fármacos mais prescritos e consumidos no Brasil e, a partir dessa relação, determinou as quatro substâncias químicas mais prováveis de serem encontradas na água. São elas: paracetamol (analgésico), cetoprofeno (anti-inflamatório), diclofenaco (anti-inflamatório) e o ácido salicílico (utilizado no tratamento da acne). Com essas informações em mãos, Maykel desenvolveu um método analítico capaz de detectar e quantificar, simultaneamente, todos esses quatro fármacos em água e aplicou uma técnica para degradá-los, que funciona através de uma reação química envolvendo peróxido de hidrogênio (água oxigenada), oxalato de ferro e luz (LED). "Essa técnica nos permitiu fazer o tratamento da água em condições semelhantes às adotadas nas ETAs", explica.

No laboratório, o pesquisador testou o procedimento de degradação proposto. Após dissolver os quatro contaminantes em água, adicionou à solução o oxalato de ferro e o peróxido de hidrogênio. Em seguida, a água foi colocada dentro de um reator com LEDs, onde ficou por aproximadamente 25 minutos reagindo. "Nós utilizamos uma concentração de contaminantes até um milhão de vezes maior do que a encontrada nas águas e, mesmo assim, atingimos uma porcentagem de 95% de degradação. No entanto, vale ressaltar que isso não significa que eles foram totalmente removidos, mas sim transformados em outras substâncias que precisam ter sua toxicidade analisada", afirma o doutorando, que apresentou seu trabalho no 47º Congresso Mundial de Química da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), que aconteceu em Paris (França) entre os dias 5 e 12 de julho.

Resag Para validar seu método de detecção e quantificação dos fármacos, Marchetti estudou as águas superficiais de São Carlos, responsáveis pela metade do abastecimento do município, por meio do Córrego Espraiado e do Ribeirão Feijão. Durante um ano, o pesquisador coletou amostras mensais de água dos pontos de entrada e saída da estação de tratamento da cidade e, felizmente, não foi identificado nenhum dos quatro fármacos pesquisados. Contudo, um estudo realizado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 2014 revelou, após três anos de análises, a presença de cafeína, paracetamol, atenolol e dos hormônios estrona e 17-?-estradiol no Rio Monjolinho. Embora ele não seja utilizado para abastecimento público, os pesquisadores se preocupam com a conservação dos recursos hídricos e a proteção da vida aquática.

Planeta afetado

Os contaminantes emergentes já se tornaram um problema global, tendo sido encontrados em dezenas de países, inclusive no Brasil. Em Campinas (SP), amostras de ácido salicílico, paracetamol e cafeína já foram identificadas no Córrego Anhumas. Além de atuar como um indicador de contaminação por fármacos, a cafeína pode causar, em altas concentrações, problemas aos peixes, como a diminuição da capacidade de locomoção e a morte de embriões. Outra substância encontrada em águas brasileiras foi o diclofenaco, confirmada no Rio Pinheiros, na capital paulista, e no Rio Paraíba, que banha o Estado paraibano. Em âmbito internacional, rios de países como Estados Unidos, Espanha, Suíça e Costa Rica já sofrem com a presença desses contaminantes.

O descuido quanto ao descarte irregular de remédios é uma das principais causas do aparecimento desse tipo de contaminante na água. Despejar produtos vencidos na pia ou em vasos sanitários, por exemplo, faz com que as substâncias cheguem até rios e mananciais. Embora a mudança de alguns hábitos seja essencial para não acentuar ainda mais o problema, causas naturais também contribuem para essa contaminação. Afinal, parte do remédio que tomamos não é metabolizada pelo nosso organismo, sendo eliminada via urina, fezes ou suor. Situação semelhante ocorre quando tomamos banho após a utilização de protetor solar, ocasião em que o produto é eliminado pelo ralo, podendo chegar tanto a águas superficiais como subterrâneas. Por sua vez, fármacos utilizados na agropecuária também são capazes de contaminar os recursos hídricos.

Segundo a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realiza pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 71,8% dos municípios brasileiros não apresentavam políticas de saneamento e, em 48,7% deles, não havia órgão fiscalizador da qualidade da água. Já de acordo com o Atlas Esgotos: Despoluição de Bacias Hidrográficas, divulgado em 2017 pela Agência Nacional das Águas (ANA), menos da metade dos esgotos do País é coletado e tratado e apenas 39% da carga orgânica gerada diariamente no Brasil é removida pelas estações de tratamento de esgoto antes dos efluentes serem lançados em rios.

Fazendo o dever de casa

Ações para melhorar a qualidade da água não podem se restringir apenas aos cientistas. Segundo o Instituto Trata Brasil, mais de 3,5 milhões de brasileiros, nas 100 maiores cidades do país, despejam esgoto irregularmente, mesmo tendo acesso a redes coletoras. Pequenas atitudes, se feitas em grande escala, podem ajudar a evitar uma contaminação ainda maior.

Segundo o professor Eduardo Bessa Azevedo, comportamentos que contribuam para a manutenção dos recursos naturais devem começar dentro de nossas casas. Afinal, não existe o "jogar fora", pois, na verdade, tudo o que descartamos sempre irá para algum lugar, podendo gerar grandes prejuízos se feito de maneira impensada. Por isso, o docente faz um pedido: "Não descarte produtos em locais incorretos e evite usar água para o que não for necessário, como lavar a calçada. Se puder fazer limpeza a seco, priorize-a. As pessoas pensam que atitudes isoladas não trarão nenhuma melhora, mas imagine se todos resolvessem ajudar".

Preocupados com o futuro de nossa água, os cientistas da USP continuarão em busca de novas alternativas para combater os contaminantes emergentes e, sem dúvida, motivações não irão faltar. "É uma questão de saúde pública, e trabalhar no desenvolvimento de soluções para o problema nos dá a certeza de que estamos fazendo o nosso papel", finaliza Marchetti. Com informações da USP.

Fonte: Labnetwork. Publicado em 26 de julho de 2019. Disponível em: https://www.labnetwork.com.br/noticias/dificeis-de-remover-farmacos-cosmeticos-e-outros-compostos-contaminam-recursos-hidricos/

Crise da água afetará em breve 1/4 da população mundial

Da Índia e Irã ao Botsuana, há dezessete nações no mundo que já têm um estresse hídrico extremamente alto, o que significa que estão usando praticamente toda a água que têm disponível, de acordo com dados do World Resources Institute divulgados em 5 de agosto.

Resag Muitos desses países são áridos; alguns estão desperdiçando a pouca água que deixaram. Vários dependem excessivamente da água subterrânea que deveriam estar armazenando para uso pontual em casos de seca.

Nesses países há muitas cidades grandes e sedentas que tiveram escassez acentuada nos últimos tempos, incluindo São Paulo, Brasil; Chennai, Índia; e Cidade do Cabo, África do Sul, que em 2018 mal conseguiu superar o chamado "dia zero", quando toda a oferta estava a ponto de secar completamente.

Estresse hídrico em áreas urbanas com mais de 3 milhões de habitantes

Mais de um terço destas cidades têm um stress hídrico elevado ou extremamente elevado.

"É muito provável que vejamos mais dias zero no futuro", disse Betsy Otto, que dirige o programa global de água do World Resources Institute. "É uma imagem alarmante em muitas partes do mundo".

As alterações climáticas agravam este risco. À medida que os padrões de precipitação se tornam mais erráticos, o abastecimento de água torna-se mais instável. Ao mesmo tempo, como os dias estão ficando mais quentes, mais água evapora das reservas justamente quando há maior demanda por ela.

Locais em estresse hídrico muitas vezes têm uma dupla maldição: São Paulo, por exemplo, foi atingida por inundações um ano depois de passar por uma seca prolongada. Chennai teve inundações fatais em 2015; agora seus reservatórios de água estão virtualmente vazios.

A água subterrânea desaparece

A Cidade do México tem secado a sua água subterrânea tão rapidamente que está literalmente afundando. Daca, a capital de Bangladesh, depende de sua água subterrânea tanto para os residentes quanto para as fábricas de roupas que consomem água, por isso agora tem que retirar líquido de aquíferos a mais de 100 metros de profundidade. Os habitantes indianos de Chennai, acostumados a depender de águas subterrâneas, agora enfrentam o fato de que não há mais disponibilidade. Em partes da Índia e do Paquistão, os agricultores estão drenando aquíferos para cultivos com uso intensivo de água, como o algodão e o arroz.

Esgotamento do lençol freático Resag

O prognóstico: mais stress

Em 33 das cidades com mais de três milhões de habitantes (com uma população combinada de mais de 255 milhões de habitantes), pesquisadores do World Resources Institute concluíram que já existe um estresse hídrico extremamente elevado, o que tem implicações para a saúde pública e pode significar transtornos sociais.

Até 2030, espera-se que o número de cidades na categoria de estresse hídrico extremamente alto aumente para 45 cidades, com quase 470 milhões de pessoas afetadas.

Quando uma cidade ou país está usando praticamente toda a água que tem disponível, uma seca pode ser catastrófica. Em 2018, após uma seca de três anos, a Cidade do Cabo foi forçada a tomar medidas extraordinárias para racionar a água disponível em seus reservatórios. A grave crise só aumentou o problema em uma cidade cujos quatro milhões de habitantes competem com os agricultores pelos poucos recursos hídricos disponíveis.

Los Angeles está experimentando algo semelhante. A mais recente seca na cidade californiana terminou este ano, mas o abastecimento de água não acompanha a enorme demanda. Também não ajuda que haja uma tendência generalizada para que as pessoas tenham piscinas no quintal.

Em Bangalore, uma série de anos com pouca chuva exibiu a má gestão da água que a cidade indiana havia feito. Os muitos lagos que uma vez embelezavam a cidade e áreas circundantes foram obstruídos por edifícios ou tornam-se lixeiras. Já não servem mais adequadamente para armazenar água da chuva, como no passado, e logo abastecer a cidade. Assim, a metrópole tem de procurar cada vez mais longe água para os seus 8,4 milhões de habitantes; muito desse líquido é perdido ao longo do caminho.


A gestão da água precisa ser melhorada

As autoridades municipais podem combater perdas no sistema de distribuição de água. As águas residuais podem ser recicladas. A água da chuva pode ser recolhida e armazenada para quando faltar o recurso: lagos e zonas húmidas podem ser limpos e poços antigos podem ser restaurados. Além disso, os agricultores podem mudar de culturas com uso intensivo de água, como o arroz, para culturas mais eficientes do ponto de vista hídrico e adaptados ao local.

"A água é um problema local e requer soluções locais", disse Priyanka Jamwal, da Ashoka Trust for Research in Ecology and the Environment, com sede em Bangalore.

Fonte: Somini Sengupta e Weiyi CaiAug. Traduzido do espanhol. The New York Times. Publicado em 08 de agosto de 2019. Disponível em: https://www.nytimes.com/es/interactive/2019/espanol/ciencia-y-tecnologia/crisis-del-agua.html


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