Resag

Boletim Especial Resag n° 33: Valor da água

E se pararmos de falar de água e começarmos a falar de segurança hídrica?

Resag O Rio Hai Tianjin, China. Imagem: Yang Aijun / Banco Mundial A água estará sempre lá, não a segurança da água. É um conceito mais envolvente que permite aos cidadãos comunicar melhor a complexidade do ciclo hidrológico urbano e torná-los participantes do modelo de gestão, seus benefícios e riscos. Usuários bem informados tornam possível criar o contexto para uma governança participativa e transparente no qual todos nós nos sentimos envolvidos. A segurança hídrica vai além do simples acesso à água e envolve trabalho constante.

Há alguma confusão entre os cidadãos sobre alguns conceitos-chave para a compreensão do escopo e significado do ciclo hidrológico urbano, o que dificulta significativamente o progresso rumo à sua eficácia. Os governos, operadores e todas as instituições envolvidas devem fazer um esforço para informar adequadamente sobre o acesso à água e ao saneamento, que é muito mais complexo do que se pensa popularmente. É complexo, mas não incompreensível, e este é um desafio de comunicação que temos de enfrentar com urgência.

Menos conversa sobre água e mais sobre segurança hídrica?

Uma causa frequente de confusão é a falta de comunicação sobre o conceito de "acesso à água". O enunciado do Direito Humano à Água e ao Saneamento, que foi resolvida em 2010 pela Assembléia Geral das Nações Unidas, teve o efeito colateral que para certos setores da opinião pública a água passou a ser categorizada como "bem público universal", e a estabelecer como premissa para construir qualquer modelo de gestão.

Resag Embora o conceito seja filosoficamente bem intencionado, ele é impreciso, entra em conflito com a realidade e dificulta a construção de uma governança sustentável e resiliente diante do grande desafio da mudança climática, da poluição e dos desequilíbrios demográficos e econômicos que se aproximam.

Diante desta situação de crise global, é muito mais eficaz, como a maioria dos especialistas aponta, falar em termos de "segurança hídrica". A definição mais universalmente aceita do termo é a dos economistas David Grey e Claudia W. Sadoff (2007): "o fornecimento confiável de água quantitativa e qualitativamente aceitável para a saúde, a produção de bens, serviços e meios de subsistência, juntamente com um nível aceitável de riscos relacionados à água". Uma definição que resume adequadamente Andrés Martínez, professor titular da Universidade de Cuenca, como "a capacidade de aproveitar o potencial produtivo da água e limitar seu potencial destrutivo".

A primeira contribuição valiosa da definição é o termo "confiável", que não inclui a mera disponibilidade do recurso, mas exige a eficiência do serviço. Isto permite que as disciplinas associadas à gestão da água sejam atribuídas com maior precisão: meteorologia, climatologia, hidrologia e tecnologias de captação são preferencialmente localizadas na área de disponibilidade; enquanto que o serviço é preferencialmente associado à economia e pode assim ser definido de forma simples e superficialmente como uma indústria.

A introdução da segurança hídrica permite situar os direitos humanos de forma mais abrangente na esfera política, que é onde ela nasceu originalmente: uma resolução que insta os Estados e as organizações internacionais a fornecer recursos financeiros e tecnológicos para alcançar um abastecimento de água potável segura e saneamento que seja saudável, limpo, disponível e acessível para todos; ou seja, a obrigação dos Estados de proporcionar segurança hídrica aos cidadãos e, consequentemente, facilitar a implementação de modelos de gestão eficazes.

Compreender o preço da água

É importante ressaltar aqui que a definição do direito humano à água inclui a de sua acessibilidade: a conta da água não deve exceder 3% do orçamento familiar, segundo a ONU; em outras palavras, e isso se reflete nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, o abastecimento de água tem um custo que deve ser refletido em um "preço".

A água fornecida no ciclo urbano não pode ser gratuita, embora esteja claro que uma governança efetiva deve desenhar uma política de preços que, além de recuperar custos, gere incentivos econômicos que garantam a resiliência financeira do modelo e que, naturalmente, seja justa. O sistema de preços deve também tornar claro o custo ambiental e facilitar a evolução para a economia circular, tendo em conta o custo da luta contra os contaminantes, especialmente os emergentes, que constituem um fator de risco adicional na oferta.

Resag Mover o conceito de bem público da água, como mero recurso, para o conceito da segurança hídrica a ser pago coletivamente, permite uma abordagem mais inclusiva do ciclo urbano para os cidadãos. Ao incluir riscos destrutivos, como secas, inundações e poluição, na concepção de um sistema de preços transparente e consensual, esta variável de risco pode ser transmitida mais claramente aos cidadãos e estes podem tornar-se mais conscientes da realidade do processo de abastecimento. Com um modelo de precificação bem explicado, todos nós também podemos ser participantes das perdas e compreender a vulnerabilidade do acesso à água. Desta forma, podem ser lançadas as bases para uma sociedade mais responsável no uso da água e mais unida numa perspectiva planetária.

No Peru, 62% das pessoas nas zonas rurais e 18% nas zonas urbanas ainda não têm acesso a um saneamento adequado.

Do ponto de vista da segurança hídrica como um bem público bem compreendido pelos cidadãos, a controvérsia sobre a gestão pública, privada ou mista da água perde protagonismo, o que virar a página de uma controvérsia que sempre foi distorcida por ideais políticos de diferentes lados, quando na realidade o que todos precisamos é de um modelo eficiente que garanta a adaptabilidade às vicissitudes da mudança climática, e que facilite o progresso para uma economia circular internacionalizada.

Resag Banheiro público na favela de CiudadPachacutec, Distrito de Ventanilla, Província de El Callao, Peru. Imagem: Monica Tijero / Banco Mundial. Livre da visão limitadora do direito simples de acesso à água pelo direito muito mais aberto à segurança hídrica, o desafio de comunicar bem aos cidadãos não diminui, mas está carregado de conteúdos mais compreensíveis e com maior potencial de alcance. Se explicamos bem o ciclo urbano diferenciado da água, a disponibilidade do recurso, a água antes do tratamento e o processo de abastecimento, poderemos então explicar melhor o papel da climatologia e da meteorologia e erradicar a ideia de que o problema da água se deve apenas à seca. Assim, é possível explicar melhor as instalações e a tecnologia avançada necessárias para o abastecimento, e que estas devem ser garantidas por um modelo de gestão eficiente: devem estar sempre atualizadas para minimizar as perdas, proteger-nos da poluição, salvaguardar o ambiente e responder às crises de escassez. Desta forma, poderemos também compreender melhor os debates sobre o consumo da agricultura, o equilíbrio das bacias hidrográficas e, em suma, a importância da água como gerador de riqueza.

Estamos perante um desafio que temos de enfrentar para avançarmos coletivamente. Somos obrigados a encontrar os conteúdos e os canais de comunicação adequados para sensibilizar os cidadãos para o ciclo hidrológico urbano. Uma cidadania informada facilitará a adoção de modelos de gestão eficazes, pois eles serão propriedade intelectual de todos.

Fonte: Traduzido do espanhol. We are Water Foundation. Publicado em 10 abril de 2019. Disponível https://www.wearewater.org/es/y-si-dejamos-de-hablar-de-agua-y-empezamos-a-hablar-de-seguridad-hidrica_314841

Difíceis de remover, fármacos, cosméticos e outros compostos contaminam recursos hídricos

Os chamados contaminantes emergentes motivaram laboratório da USP em São Carlos a desenvolver técnica para solucionar o problema

Você sabia que a água que você consome em sua casa pode não estar totalmente livre de impurezas? Esse risco existe quando produtos que utilizamos no dia a dia, como remédios, protetores solares e itens de higiene pessoal são encontrados em rios que abastecem municípios. As estações de tratamento de água não conseguem remover completamente esses compostos, já que não possuem equipamentos apropriados para a tarefa. Batizados de contaminantes emergentes, essas substâncias desafiam há anos centenas de cientistas brasileiros a buscarem soluções eficientes e a entenderem os impactos que elas podem causar ao meio ambiente e aos seres vivos.

Resag Segundo o professor Eduardo Bessa Azevedo, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, o Brasil ainda não possui uma legislação que determine quantidades seguras desses contaminantes na água.

"São substâncias encontradas em pequenas concentrações, mas que, se consumidas por anos, podem trazer algum risco", alerta.

Estudos indicam que o lançamento não controlado de fármacos nos corpos d’água pode, por exemplo, gerar o desenvolvimento de microrganismos resistentes a antibióticos. Caso haja a ingestão dessa água contaminada, seres humanos e animais estão sujeitos a problemas como disfunções no sistema endócrino e reprodutivo, além de distúrbios metabólicos. Diversos compostos químicos são capazes de interferir no metabolismo, entre eles, destacam-se os que estão presentes em hormônios, anti-inflamatórios, antidepressivos, hidrocarbonetos poliaromáticos e pesticidas.

A falta de efetividade no combate aos contaminantes emergentes preocupa os cientistas e acende o sinal de alerta na sociedade. "As estações de tratamento d’água (ETAs), basicamente, trabalham para retirar sua turbidez e torná-la potável. Elas têm uma capacidade limitada de remoção desses contaminantes, pois foram projetadas numa época em que não existia essa demanda", explica o docente. De acordo com o Instituto Trata Brasil, quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso ao abastecimento de água tratada. Em 2016, uma em cada sete mulheres do País não tinha acesso à água, enquanto 7,5% das crianças e dos adolescentes não possuíam água filtrada ou vinda de fonte segura.

A ciência entra em cena Resag

Há algumas décadas, pesquisas têm chamado a atenção sobre os possíveis danos que os contaminantes emergentes podem causar aos recursos hídricos, fato que impulsionou o interesse da comunidade científica em busca de soluções para identificação, monitoramento e remoção dessas substâncias. No IQSC, o Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Ambientais (LDTAmb) está envolvido nesse desafio, criando alternativas promissoras. "Diferentemente das tecnologias tradicionais, as quais amenizam o problema da poluição, mas não o resolvem, as pesquisas desenvolvidas em nosso laboratório se preocupam em realmente destruir os contaminantes. Não basta reduzirmos a concentração de determinada substância se ela ainda continua com sua função biológica ativa, podendo trazer algum perigo", afirma o professor Eduardo, que coordena o LDTAmb.

Uma das pesquisas desenvolvidas no Laboratório da USP é a de Maykel Marchetti, doutorando do IQSC. Após realizar um levantamento, o pesquisador descobriu quais eram os fármacos mais prescritos e consumidos no Brasil e, a partir dessa relação, determinou as quatro substâncias químicas mais prováveis de serem encontradas na água. São elas: paracetamol (analgésico), cetoprofeno (anti-inflamatório), diclofenaco (anti-inflamatório) e o ácido salicílico (utilizado no tratamento da acne). Com essas informações em mãos, Maykel desenvolveu um método analítico capaz de detectar e quantificar, simultaneamente, todos esses quatro fármacos em água e aplicou uma técnica para degradá-los, que funciona através de uma reação química envolvendo peróxido de hidrogênio (água oxigenada), oxalato de ferro e luz (LED). "Essa técnica nos permitiu fazer o tratamento da água em condições semelhantes às adotadas nas ETAs", explica.

No laboratório, o pesquisador testou o procedimento de degradação proposto. Após dissolver os quatro contaminantes em água, adicionou à solução o oxalato de ferro e o peróxido de hidrogênio. Em seguida, a água foi colocada dentro de um reator com LEDs, onde ficou por aproximadamente 25 minutos reagindo. "Nós utilizamos uma concentração de contaminantes até um milhão de vezes maior do que a encontrada nas águas e, mesmo assim, atingimos uma porcentagem de 95% de degradação. No entanto, vale ressaltar que isso não significa que eles foram totalmente removidos, mas sim transformados em outras substâncias que precisam ter sua toxicidade analisada", afirma o doutorando, que apresentou seu trabalho no 47º Congresso Mundial de Química da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), que aconteceu em Paris (França) entre os dias 5 e 12 de julho.

Resag Para validar seu método de detecção e quantificação dos fármacos, Marchetti estudou as águas superficiais de São Carlos, responsáveis pela metade do abastecimento do município, por meio do Córrego Espraiado e do Ribeirão Feijão. Durante um ano, o pesquisador coletou amostras mensais de água dos pontos de entrada e saída da estação de tratamento da cidade e, felizmente, não foi identificado nenhum dos quatro fármacos pesquisados. Contudo, um estudo realizado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 2014 revelou, após três anos de análises, a presença de cafeína, paracetamol, atenolol e dos hormônios estrona e 17-?-estradiol no Rio Monjolinho. Embora ele não seja utilizado para abastecimento público, os pesquisadores se preocupam com a conservação dos recursos hídricos e a proteção da vida aquática.

Planeta afetado

Os contaminantes emergentes já se tornaram um problema global, tendo sido encontrados em dezenas de países, inclusive no Brasil. Em Campinas (SP), amostras de ácido salicílico, paracetamol e cafeína já foram identificadas no Córrego Anhumas. Além de atuar como um indicador de contaminação por fármacos, a cafeína pode causar, em altas concentrações, problemas aos peixes, como a diminuição da capacidade de locomoção e a morte de embriões. Outra substância encontrada em águas brasileiras foi o diclofenaco, confirmada no Rio Pinheiros, na capital paulista, e no Rio Paraíba, que banha o Estado paraibano. Em âmbito internacional, rios de países como Estados Unidos, Espanha, Suíça e Costa Rica já sofrem com a presença desses contaminantes.

O descuido quanto ao descarte irregular de remédios é uma das principais causas do aparecimento desse tipo de contaminante na água. Despejar produtos vencidos na pia ou em vasos sanitários, por exemplo, faz com que as substâncias cheguem até rios e mananciais. Embora a mudança de alguns hábitos seja essencial para não acentuar ainda mais o problema, causas naturais também contribuem para essa contaminação. Afinal, parte do remédio que tomamos não é metabolizada pelo nosso organismo, sendo eliminada via urina, fezes ou suor. Situação semelhante ocorre quando tomamos banho após a utilização de protetor solar, ocasião em que o produto é eliminado pelo ralo, podendo chegar tanto a águas superficiais como subterrâneas. Por sua vez, fármacos utilizados na agropecuária também são capazes de contaminar os recursos hídricos.

Segundo a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realiza pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 71,8% dos municípios brasileiros não apresentavam políticas de saneamento e, em 48,7% deles, não havia órgão fiscalizador da qualidade da água. Já de acordo com o Atlas Esgotos: Despoluição de Bacias Hidrográficas, divulgado em 2017 pela Agência Nacional das Águas (ANA), menos da metade dos esgotos do País é coletado e tratado e apenas 39% da carga orgânica gerada diariamente no Brasil é removida pelas estações de tratamento de esgoto antes dos efluentes serem lançados em rios.

Fazendo o dever de casa

Ações para melhorar a qualidade da água não podem se restringir apenas aos cientistas. Segundo o Instituto Trata Brasil, mais de 3,5 milhões de brasileiros, nas 100 maiores cidades do país, despejam esgoto irregularmente, mesmo tendo acesso a redes coletoras. Pequenas atitudes, se feitas em grande escala, podem ajudar a evitar uma contaminação ainda maior.

Segundo o professor Eduardo Bessa Azevedo, comportamentos que contribuam para a manutenção dos recursos naturais devem começar dentro de nossas casas. Afinal, não existe o "jogar fora", pois, na verdade, tudo o que descartamos sempre irá para algum lugar, podendo gerar grandes prejuízos se feito de maneira impensada. Por isso, o docente faz um pedido: "Não descarte produtos em locais incorretos e evite usar água para o que não for necessário, como lavar a calçada. Se puder fazer limpeza a seco, priorize-a. As pessoas pensam que atitudes isoladas não trarão nenhuma melhora, mas imagine se todos resolvessem ajudar".

Preocupados com o futuro de nossa água, os cientistas da USP continuarão em busca de novas alternativas para combater os contaminantes emergentes e, sem dúvida, motivações não irão faltar. "É uma questão de saúde pública, e trabalhar no desenvolvimento de soluções para o problema nos dá a certeza de que estamos fazendo o nosso papel", finaliza Marchetti. Com informações da USP.

Fonte: Labnetwork. Publicado em 26 de julho de 2019. Disponível em: https://www.labnetwork.com.br/noticias/dificeis-de-remover-farmacos-cosmeticos-e-outros-compostos-contaminam-recursos-hidricos/

Crise da água afetará em breve 1/4 da população mundial

Da Índia e Irã ao Botsuana, há dezessete nações no mundo que já têm um estresse hídrico extremamente alto, o que significa que estão usando praticamente toda a água que têm disponível, de acordo com dados do World Resources Institute divulgados em 5 de agosto.

Resag Muitos desses países são áridos; alguns estão desperdiçando a pouca água que deixaram. Vários dependem excessivamente da água subterrânea que deveriam estar armazenando para uso pontual em casos de seca.

Nesses países há muitas cidades grandes e sedentas que tiveram escassez acentuada nos últimos tempos, incluindo São Paulo, Brasil; Chennai, Índia; e Cidade do Cabo, África do Sul, que em 2018 mal conseguiu superar o chamado "dia zero", quando toda a oferta estava a ponto de secar completamente.

Estresse hídrico em áreas urbanas com mais de 3 milhões de habitantes

Mais de um terço destas cidades têm um stress hídrico elevado ou extremamente elevado.

"É muito provável que vejamos mais dias zero no futuro", disse Betsy Otto, que dirige o programa global de água do World Resources Institute. "É uma imagem alarmante em muitas partes do mundo".

As alterações climáticas agravam este risco. À medida que os padrões de precipitação se tornam mais erráticos, o abastecimento de água torna-se mais instável. Ao mesmo tempo, como os dias estão ficando mais quentes, mais água evapora das reservas justamente quando há maior demanda por ela.

Locais em estresse hídrico muitas vezes têm uma dupla maldição: São Paulo, por exemplo, foi atingida por inundações um ano depois de passar por uma seca prolongada. Chennai teve inundações fatais em 2015; agora seus reservatórios de água estão virtualmente vazios.

A água subterrânea desaparece

A Cidade do México tem secado a sua água subterrânea tão rapidamente que está literalmente afundando. Daca, a capital de Bangladesh, depende de sua água subterrânea tanto para os residentes quanto para as fábricas de roupas que consomem água, por isso agora tem que retirar líquido de aquíferos a mais de 100 metros de profundidade. Os habitantes indianos de Chennai, acostumados a depender de águas subterrâneas, agora enfrentam o fato de que não há mais disponibilidade. Em partes da Índia e do Paquistão, os agricultores estão drenando aquíferos para cultivos com uso intensivo de água, como o algodão e o arroz.

Esgotamento do lençol freático Resag

O prognóstico: mais stress

Em 33 das cidades com mais de três milhões de habitantes (com uma população combinada de mais de 255 milhões de habitantes), pesquisadores do World Resources Institute concluíram que já existe um estresse hídrico extremamente elevado, o que tem implicações para a saúde pública e pode significar transtornos sociais.

Até 2030, espera-se que o número de cidades na categoria de estresse hídrico extremamente alto aumente para 45 cidades, com quase 470 milhões de pessoas afetadas.

Quando uma cidade ou país está usando praticamente toda a água que tem disponível, uma seca pode ser catastrófica. Em 2018, após uma seca de três anos, a Cidade do Cabo foi forçada a tomar medidas extraordinárias para racionar a água disponível em seus reservatórios. A grave crise só aumentou o problema em uma cidade cujos quatro milhões de habitantes competem com os agricultores pelos poucos recursos hídricos disponíveis.

Los Angeles está experimentando algo semelhante. A mais recente seca na cidade californiana terminou este ano, mas o abastecimento de água não acompanha a enorme demanda. Também não ajuda que haja uma tendência generalizada para que as pessoas tenham piscinas no quintal.

Em Bangalore, uma série de anos com pouca chuva exibiu a má gestão da água que a cidade indiana havia feito. Os muitos lagos que uma vez embelezavam a cidade e áreas circundantes foram obstruídos por edifícios ou tornam-se lixeiras. Já não servem mais adequadamente para armazenar água da chuva, como no passado, e logo abastecer a cidade. Assim, a metrópole tem de procurar cada vez mais longe água para os seus 8,4 milhões de habitantes; muito desse líquido é perdido ao longo do caminho.


A gestão da água precisa ser melhorada

As autoridades municipais podem combater perdas no sistema de distribuição de água. As águas residuais podem ser recicladas. A água da chuva pode ser recolhida e armazenada para quando faltar o recurso: lagos e zonas húmidas podem ser limpos e poços antigos podem ser restaurados. Além disso, os agricultores podem mudar de culturas com uso intensivo de água, como o arroz, para culturas mais eficientes do ponto de vista hídrico e adaptados ao local.

"A água é um problema local e requer soluções locais", disse Priyanka Jamwal, da Ashoka Trust for Research in Ecology and the Environment, com sede em Bangalore.

Fonte: Somini Sengupta e Weiyi CaiAug. Traduzido do espanhol. The New York Times. Publicado em 08 de agosto de 2019. Disponível em: https://www.nytimes.com/es/interactive/2019/espanol/ciencia-y-tecnologia/crisis-del-agua.html


Boletim Especial Resag N° 32: Coquetel Perigoso

Leia nesta edição do Boletim Resag:

  • Coquetel perigoso
  • Senado aprova projeto de lei que atualiza o marco regulatório do saneamento básico
  • Dessalinização já é realidade no Brasil

COQUETEL PERIGOSO

Levantamento aponta que 1 a cada 4 cidades brasileiras tem água contaminada por 27 tipos de agrotóxicos

Um coquetel que mistura diferentes agrotóxicos foi encontrado na água consumida em 1 a cada 4 cidades do Brasil entre os anos 2014 e 2017. Nesse período, as empresas de abastecimento de 1.396 municípios detectaram todos os 27 pesticidas que são estão obrigados por lei a serem testados. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, má formação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas. Entre os locais com contaminação múltipla estão capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas.

Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos em investigação conjunta da Repórter Brasil, da Agência Pública e a organização suíça PublicEye. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento. Os números revelam que a contaminação da água está aumentando a passos largos e constantes.

Em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Alcançou os 84% em 2015 e 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. A falta de monitoramento também é um problema. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes nas suas redes de abastecimento entre 2014 e 2017. Embora se trate de informação pública, os testes não são divulgados de forma legível para a população, deixando os brasileiros sem conhecimento sobre os riscos que correm ao beber um copo d’água. Em um esforço conjunto, a Repórter Brasil, a Agência Pública e a organização suíça PublicEye fizeram um mapa com os agrotóxicos encontrados em cada cidade.

Mapa Coquetel Tóxico O retrato nacional da contaminação da água gerou alarde entre profissionais da saúde. "A situação é extremamente preocupante e certamente configura riscos e impactos à saúde da população", afirma a toxicologista e médica do trabalho Virginia Dapper. O tom foi o mesmo na reação da pesquisadora em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco, Aline Gurgel: "dados alarmantes, representam sério risco para a saúde humana".

Entre os agrotóxicos encontrados em mais de 80% dos testes, há cinco classificados como "prováveis cancerígenos" pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e seis apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, o que gera diversos problemas à saúde, entre eles a puberdade precoce. Do total de 27 pesticidas na água dos brasileiros, 21 estão proibidos na União Europeia em função dos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente.

Mistura preocupa pesquisadores

A mistura entre os diversas químicos foi um dos pontos que mais gerou preocupação entre os especialistas ouvidos. O perigo é que a combinação de substâncias multiplique ou até mesmo gere novos efeitos nocivos. Essas reações já foram demonstradas em testes, afirma a química CassianaMontagner. "Mesmo que um agrotóxico não tenha efeito sobre a saúde humana, ele pode ter quando mistura com outra substância", explica Montagner, que pesquisa a contaminação da água no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo. "A mistura é uma das nossas principais preocupações com os agrotóxicos na água".

Os paulistas foram os que mais beberam esse coquetel nos últimos anos. O estado foi recordista em número de municípios onde todos os 27 agrotóxicos estavam na água. São mais de 500 cidades, incluindo a grande São Paulo - Guarulhos, São Bernardo do Campo, Santo André e Osasco - além da própria capital. E algumas das mais populosas, como Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto e Sorocaba. O estado do Paraná foi o segundo colocado, com coquetel presente em 326 cidades, seguido por Santa Catarina e Tocantins.

Os especialistas falam muito sobre a "invisibilidade" do efeito coquetel. As políticas públicas não monitoram a interação entre as substâncias porque os estudos que embasam essas políticas não apontam os riscos desse fenômeno. "Os agentes químicos são avaliados isoladamente, em laboratório, e ignoram os efeitos das misturas que ocorrem na vida real", diz a médica e toxicologista Dapper.

Por isso, ela lamenta, as pessoas que já estão desenvolvendo doenças em decorrência dessa múltipla contaminação provavelmente nunca saberão a origem da sua enfermidade. Nem os seus médicos.

Questionado sobre quais medidas estão sendo tomadas, o Ministério da Saúde enviou respostas por e-mail reforçando que "a exposição aos agrotóxicos é considerada grave problema de saúde pública" e listando efeitos nocivos que podem gerar "puberdade precoce, aleitamento alterado, diminuição da fertilidade feminina e na qualidade do sêmen; além de alergias, distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, neurológicos e neoplasias”.

A resposta, porém, ressalta que ações de controle e prevenção só podem ser tomadas quando o resultado do teste ultrapassa o máximo permitido em lei. Entretanto, o país não tem um limite fixado ao que diz respeito a mistura de substâncias.

Essa é uma das reivindicações dos grupos que pedem uma regulação mais rígida para os agrotóxicos. "É um absurdo esse problema ficar invisível no monitoramento da água e não haver ações para controlá-lo", afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro de produção e membro da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. "Se detectar diversos agrotóxicos, mas cada um abaixo do seu limite individual, a água será considerada potável no Brasil. Mas a mesma água seria proibida na França".

Ele se refere à regra da União Europeia que busca restringir a mistura de substâncias: o máximo permitido é de 0,5 microgramas em cada litro de água - somando todos os agrotóxicos encontrados. No Brasil, há apenas limites individuais. Assim, somando todos os limites permitidos para cada um dos agrotóxicos monitorados, a mistura de substâncias na nossa água pode chegar a 1.353 microgramas por litro sem soar nenhum alarme. O valor equivale a 2.706 vezes o limite europeu.

Doses pequenas, risco grande

Mesmo quando se olha a contaminação de cada agrotóxico isoladamente, o quadro preocupa. Dos 27 agrotóxicos monitorados, 20 são listados como altamente perigosos pela PesticideAction Network, grupo que reúne centenas de organizações não governamentais que trabalham para monitorar os efeitos dos agrotóxicos.

Mas, aos olhos da lei brasileira, o problema é pequeno. Apenas 0,3% de todos os casos detectados de 2014 a 2017 ultrapassaram o nível considerado seguro para cada substância. Mesmo considerando os casos em que se monitora dez agrotóxicos proibidos no Brasil, são poucas as situações em que a presença deles na água soa o alarme.

E esse é o segundo alerta feito por parte dos pesquisadores: os limites individuais seriam permissivos. "Essa legislação está há mais de dez anos sem revisão, é muito atraso do ponto de vista científico" afirma a química Montagner. "É como usar uma TV antiga, pequena e preto e branco, quando você pode ter acesso a uma HD de alta definição".

Ela se refere a pesquisas mais recentes sobre os riscos do consumo frequente e em quantidades menores, um tipo de contaminação que não gera reações imediatas. "Talvez certo agrotóxico na água não leve 15% da cidade para o hospital no mesmo dia. Mas o consumo contínuo gera efeitos crônicos ainda mais graves, como câncer, problemas na tireoide, hormonal ou neurológico", alerta Montagner. "Já temos evidências científicas, mas a água contaminada continua sendo considerada como potável porque não se olha as quantidades menores", afirma.

Em resposta a essa crítica, um grupo de trabalho foi criado pelo Ministério da Saúde para rever os limites da contaminação. "Estamos fazendo um trabalho criterioso", afirma Ellen Pritsch, engenheira química e representante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no grupo. Segundo ela, pesquisas internacionais e regulações de outros países estão sendo levados em conta. A previsão é que os trabalhos, iniciados em 2014, sejam concluídos em outubro de este ano.

Pelo menos 144 cidades detectaram o mesmo pesticida de modo contínuo durante os quatro anos de medições seguidos, segundo os dados. Mais uma vez, São Paulo é o recordista desse fenômeno de intoxicação. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam o uso de pesticidas na produção de cana de açúcar como a provável origem para a larga contaminação do estado. "A cultura da cana é a que tem mais herbicidas registrados. Como São Paulo é um dos maiores produtores de cana, isso justifica sua presença elevada (de pesticidas na água)", afirma Kassio Mendes, coordenador do comitê de qualidade ambiental da Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas Daninhas.

O diuron, um dos principais herbicidas usados pelo setor, foi detectado em todos os testes feitos na água dos mananciais das regiões onde mais se cultiva cana no estado, segundo dados de 2017 da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A substância é uma das apontadas como provável cancerígena pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.

Fonte: Ana Aranha e Luana Rocha – Repórter Brasil e Agência.Publicado em: 15 de abril de 19. Link para a noticia: https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/coquetel-com-agrotoxicos-esta-presente-na-agua-de-1-a-cada-4-municipios/index.htm#a-discrepancia-entre-brasil-e-europa

SENADO APROVA PROJETO DE LEI QUE ATUALIZA O MARCO REGULATÓRIO DO SANEAMENTO BÁSICO

Texto permite que empresas privadas prestem serviço de saneamento e amplia prazo para municípios extinguirem lixões. MP sobre o assunto perdeu validade por falta de acordo.


O plenário do Senado aprovou nesta quinta-feira (6) projeto de lei que atualiza o marco regulatório do saneamento básico. A votação foi simbólica, sem o registro de votos. O projeto segue para a Câmara dos Deputados.

A proposta recupera boa parte do conteúdo da Medida Provisória (MP) que perdeu a validade no dia 03 de este mês por não ter sido aprovada dentro do prazo pelo Congresso. A MP foi editada ainda no governo do ex-presidente Michel Temer.

No último dia 30, o relator do texto, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) apresentou um novo projeto de lei com o mesmo teor. No último dia 03, o plenário do Senado aprovou em caráter de urgência o texto para acelerar a tramitação no parlamento.

O projeto

O texto permite que empresas privadas prestem serviços de saneamento básico por meio de contrato de concessão.

São serviços de saneamento: abastecimento de água potável, coleta e tratamento de esgoto, limpeza urbana e redução e reciclagem do lixo.

O projeto determina, ainda, a abertura de licitação, com a participação de empresas públicas e privadas, e acaba com o direito de preferência das companhias estaduais. O formato do contrato poderá ser, por exemplo, a Parceria Público-Privada (PPP), firmada entre empresa privada e o governo federal, estadual ou municipal.

Um dos pontos do texto que pode incentivar a participação da iniciativa privada é a permissão para que uma mesma empresa preste serviço para um "bloco" de municípios. Isso foi proposto porque uma cidade pequena isolada pode não ser rentável para a empresa privada.

Uma emenda (sugestão de mudança ao texto) aprovada em plenário estabeleceu que os blocos serão determinados por lei estadual. Não há limitação para tamanho ou número de cidades – um bloco pode corresponder a um estado. Os estados terão três anos para criar os blocos.

Sem licitação

Senadores aprovaram uma mudança no texto que passou pela Comissão de Serviços de Infraestrutura. Conforme o projeto, municípios poderão fechar contrato de concessão sem licitação com empresas públicas ou companhias de economia mista do setor de saneamento. Isso só acontecerá caso nenhuma empresa privada se candidate à licitação ou por falta de "viabilidade econômica" para privatizar a companhia estadual de saneamento.

O contrato de programa acontece quando um ente da federação presta serviço para outro. No caso do saneamento básico, geralmente as companhias estaduais públicas prestam serviços aos municípios. Segundo o projeto de lei, tanto os contratos de concessão quanto os de programa já existentes serão mantidos.

Há opção de prorrogar os contratos de programa por uma única vez. Mas estes também poderão ser convertidos, a qualquer momento, em uma parceria com a iniciativa privada.

Portanto, o município pode seguir com a companhia estatal ou pode fechar uma parceria com empresa privada. "É facultado a qualquer interessado propor ao prestador dos serviços, a qualquer tempo, projeto de parceria com vistas à universalização dos serviços", diz o texto.

O órgão regulador terá um ano para aprovar o contrato de concessão. Se aprovado, o edital de licitação deve ser publicado também em um ano.

Aterros sanitários

O projeto aprovado pelos senadores estende o prazo para municípios substituírem lixões por aterros sanitários. Isso, porém, não inclui cidades que já tenham elaborado um plano de tratamento de resíduos sólidos. Inicialmente, os aterros deveriam ter sido instalados em todas as cidades até 2014.

As datas, sugeridas pela proposta, também variam de acordo com o tamanho da cidade para implementação do aterro:

  • Até 2 de agosto de 2021 para capitais de estados e municípios integrantes de Região Metropolitana (RM) ou de Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE) de capitais;
  • Até 2 de agosto de 2022 para cidades com mais de 100 mil habitantes;
  • Até 2 agosto de 2023 para municípios com população entre 50 e 100 mil habitantes;
  • Até 2 de agosto de 2024 para cidades com menos de 50 mil habitantes.

Atualmente, a legislação estabelece como devem ser tratados o lixo (rejeitos sólidos). Há uma ordem de prioridade de tratamento: não geração de resíduos, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos sólidos e disposição final "ambientalmente adequada" dos rejeitos.

O aterro sanitário é uma opção adequada de descarte. O aterro confina os resíduos sólidos à menor área possível e os cobre com terra. Portanto, é formado por camadas alternadas de lixo e de terra. Diferentemente do lixão a céu aberto, o aterro deve ser impermeabilizado, tem um limite de volume de resíduos e um controle maior do material depositado, além de ter o acesso restrito à população.

Por lei, municípios são obrigados a elaborar um plano regional de saneamento. Um decreto de 2017 condiciona a criação do plano, pelos municípios, ao acesso de recursos federais para serviços de saneamento básico.

Senadores

Apesar de a votação não ter sido nominal, com placar e conhecimento do voto de cada senador, sete parlamentares manifestaram seu voto contrário ao projeto.

"Espero que esse projeto faça com o saneamento o que a abertura para o capital privado fez com a telefonia, e que, em breve, todos os brasileiros tenham água tratada, saneamento e que a nossa saúde melhore muito por conta disso", disse Oriovisto Guimarães (Pode-PR) que apoiou a proposta.

O líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), argumentou que haverá uma economia nos gastos com a saúde pública se o projeto virar lei. "Cada real gasto com saneamento significa R$ 3 economizados na saúde", comparou.

Para o líder do PDT, senador Weverton (MA), a participação das empresas privadas não vai solucionar o problema do saneamento no país. "Lembrem-se: as empresas grandes que vão vir para o Brasil não estão vindo preocupadas com o nosso povo pobre que está sem acesso ao saneamento, como a água potável. Eles estão vindo aqui para saber como é que eles vão sugar mais um pouquinho o dinheiro do povo brasileiro", explicou.

Fonte: Sara Resende, TV Globo. Publicado em 06 de junho de 19. Link para a noticia: https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/06/06/senado-aprova-projeto-que-substitui-mp-do-saneamento-basico.ghtml

DESSALINIZAÇÃO JÁ É REALIDADE NO BRASIL

O mercado possui vários projetos e companhias de tratamento de águas


Mapa Coquetel Tóxico Planta de uma central de dessalinização. Imagem: Diogo Taranro. Portal Tratamento Mesmo com uma extensa área litorânea, a dessalinização raramente foi uma opção de abastecimento no Brasil. No entanto, com as estiagens regulares em diversas regiões do País, a redução do volume e a crescente poluição nos reservatórios de água doce das grandes cidades, o processo tem se tornado cada vez mais plausível.

O “dessal” é um conjunto de processos físico-químicos que tem por objetivo a retirada do sal da água do mar, por meio de diferentes tecnologias, tais como: osmose reversa, destilação por multiestágios ou destilação térmica, que é o meio mais antigo utilizado para a realização da técnica. Em países como Israel e Estados Unidos é comum o uso do “dessal” para provimento de água potável à população. Já no Brasil, o sistema ainda está engatinhando e é pouco conhecido.

Quem tornou o processo mais evidente recentemente foi o governo federal, que destacou a importância da tecnologia ao afirmar que está em busca de alianças com outros países, com a proposta de ampliar o conhecimento sobre o tema para implementação da ação em solo nacional.

O mercado brasileiro já possui projetos e companhias do segmento de tratamento de águas com a “expertise” necessária para projetar, instalar e até operar sistemas de dessalinização, fazendo assim, com que as barreiras tecnológicas não sejam mais um obstáculo para a viabilidade de fontes alternativas de abastecimento público e privado.

As cidades litorâneas podem se tornar referências para estas ações. Levando em consideração o racionamento de água nessas regiões, esta é uma solução que pode suprir a falta de abastecimento de água para a população. A dessalinização beneficia também empresas localizadas próximas ao mar e que possuem a água como um recurso importante dentro de seu processo industrial.

Dessalinizar água no Brasil é admitir fracasso, diz chefe da área em Israel

Há 80 anos investindo em gestão e tecnologia para abastecimento de água, Israel se tornou uma referência em uso eficiente e sustentável dos recursos hídricos. O país está localizado em uma das áreas habitadas mais secas do mundo, o que o obriga ao uso de técnicas caras como a dessalinização da água do mar. Essa tecnologia, por sinal, chegou a ser anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) para abastecer o semiárido nordestino.

Mapa Coquetel Tóxico Diego Berger, coodenador de projetos internacional da Mekorot (Companhia Nacional de Água de Israel). Imagem: Edison Omega/Algo Mais Consultoria Atualmente, a ideia parece ter saído do radar governamental. Mas a explicação pode estar na visão dos próprios israelenses sobre a técnica. Diego Berger, coordenador de projetos internacionais da Mekorot (Companhia Nacional de Água de Israel), afirma que o Brasil não precisa dessa tecnologia, já que no nosso país há água suficiente. "O problema aqui é cultural, vocês têm uma cultura da abundância. E, quando você dessaliniza, você está reconhecendo o fracasso da gestão", diz.

Para ele, o problema brasileiro está no desperdício e na falta de uma melhor gestão. "Com gestão, acredito que vocês vão perceber que não precisam da última tecnologia (dessalinizar a água do mar). Vocês precisam de uma tecnologia adequada para a realidade de vocês".

Berger explica que Israel reutiliza 85% do esgoto, que responde por metade da água usada para irrigação na agricultura. Diz também que as perdas no país hoje representam apenas 10% – no Brasil esse índice, em 2016, chegou a 38% da água potável, segundo relatório da Rede Brasil do Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas).

"Todo mundo vai em Israel para comprar tecnologia porque acha que tem solução rápida. A gente não está vendendo um programa, um software. Todas as políticas são de longo prazo. Você pode ir lá, comprar uma tecnologia e melhorar um pouco. Mas você tem de fazer a gestão, e isso é a longo prazo", diz.

"Você tem de ter aqui redução das perdas, utilizar bem as coisas, educar as pessoas", aponta Berger, deixando um conselho: "Vocês têm de resolver isso enquanto tem o recurso".

Fontes: Diogo Taranto – Portal Tratamento de Água. Publicado em 11 de junho de 19. Link para a noticia: https://www.tratamentodeagua.com.br/dessalinizacao-realidade-brasil/?utm_source=Newsletter&utm_medium=RD_junho05&utm_campaign=RD_junho05&utm_term=Dessalinização&utm_content=Dessalinização Carlos Madeiro – Uol Notícias. Publicado em 20 de maio de 19. Link para a noticia: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/05/20/brasil-requer-gestao-nao-dessalinizar-agua-diz-chefe-hidrico-de-israel.htm


Boletim Especial Resag n° 31: Etiquetar a eficiência hídrica

Nas últimas décadas o debate sobre a distribuição e qualidade da água tem sido de grande destaque mundial. A distribuição geográfica desigual das reservas de água doce combinada à densidade populacional de cada continente coloca grande pressão sobre a retirada deste recurso do meio ambiente e sobre sua qualidade.

Selos de eficiência energética já bastante conhecidos
pelos brasileiros.

Em 2015 a ONU aprovou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, agenda que conta com 17 metas de desenvolvimento sustentável que vão desde a eliminação da pobreza até o combate à mudança climática, melhoria da educação, promoção da igualdade de gêneros, defesa do meio ambiente, desenvolvimento urbanosustentável e, como era de se esperar, objetivos em relação a água. Melhorar a sustentabilidade dos recursos hídricos é fundamental para as gerações atuais e futuras.

Segundo a ONU (2016), a escassez de água afeta a 40% de toda população mundial e a expectativa é que, caso não se tomem medidas de proteção e tratamento, este porcentual cresça nas próximas décadas. Os efeitos da mudança climática e o rápido crescimento urbano são fatores determinantes. Estimativas indicam que em 2050 cerca de 66% de toda população mundial resida em território urbano o que aumentaria substancialmente a demanda energética e hídrica. Ao mesmo tempo, hoje,mais de 80% das aguas residuais resultantes de atividades humanas são despejadas nos rios e mares sem nenhum tratamento.

Selos de eficiência hídrica:
exemplo de modelo utilizado
na Áustralia.

O setor residencial representa um papel crucial no consumo consciente deste recurso com o uso combinado de estratégias focadas em reduzir e/ou buscar alternativas eficientes ao consumo de água. A água consumida através de aparelhos internos e externos (por exemplo, chuveiros, vasos sanitários, máquinas de lavar roupa) representa uma parcela significativa do uso diário de água das famílias. Para estes consumos, há um grande potencial de redução através, por exemplo, da instalação de equipamentos quegeram uma importante economia.

Consequentemente, numerosas medidas para promover o consumo sustentável da água foram estabelecidas pelas administrações publicas. Nesse sentido, se há lançado mão de instrumentos baseados no escalonamento de preços e outras medidas não relacionadas diretamente ao preço, para atender a demanda residencial. No entanto, políticas de aumento de preço não são bem aceitas pela população e podem causar maiores danos a populações mais vulneráveis.

Classificar a eficiência: transparência e economia para o consumidor

Consoante a este cenário, sistemas de classificação de eficiência hídrica nas edificações e produtos têm ganhado a atenção de uma série de governos. Entre tais sistemas, estão: WELL na Europa (Water Efficiency Labelling), WELS na Áustralia(Water Efficiency Labeling and Standards) ou o Watersense criado pela U.S. Environmental Protection Agency (EPA).Estes sistemas de classificação permitem aos usuários e compradores identificar de maneira fácil e simples edifícios que têm melhores níveis de sustentabilidade e uso eficiente da água.

Os sistemas de etiqueta de eficiência podem ser obrigatórios ou, como em sua maioria, ainda voluntários, ou seja, opcionais ao proprietário ou desenvolvedor imobiliário que proporcione tal informação.

Impactos das etiquetas de eficiência especialmente no que diz respeito a água

Estudos indicam que etiquetas ecológicas nos imóveis aumentam as probabilidades de seus usuários utilizarem equipamentos com medidas de economia de água e energia. A partir do etiquetamento, há outros fatores de motivação associados, como:salário mensal dos residentes, o grau de estudos e conhecimento a respeito da conservação da água e da energia, relação de propriedade (residentes proprietários são mais propensos a instalar equipamentos com menor consumo de água e energia), tamanho da casa, idade (indivíduos mais jovens são mais informados a respeito das medidas de eficiência) e o tipo de casa (diferenças entre apartamentos, casas isoladas e casas geminadas).

Selos de eficiência energética já bastante conhecidos
pelos brasileiros.

Interessante investigação realizada por expertos de 4 países avaliou os efeitos das atitudes dos indivíduos e dos sistemas de etiqueta energética e hídrica em relação a escolha dos equipamentos residenciais e o consumo, além de relacionar o comportamento de conservação de energia e água.

O estudo reuniu informações de mais de 12.000 residências em 11 países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico): Austrália, Canadá, Chile, França, Israel, Coréia do Sul, Japão, Holanda, Espanha, Suécia e Suíça. Dentro deste grupo de países todos possuíam sistemas de etiquetas de eficiência energética e três deles sistemas de classificação de eficiência hídrica (Austrália, Israel e Holanda).

Os entrevistados eram perguntados sobre seus hábitos de consumo de água e energia: adoção de dispositivos de economia de água/energia, a carga de consumo, suas considerações a respeito da eficiência no momento de comprar novos equipamentos (por exemplo, lavadoras de roupa e de louça) e sua consciência e conhecimento a respeito das etiquetas de eficiência hídrica e energética.

A conclusão foi que sistemas de classificação de eficiência confiáveis, quando combinados com a consciência e o conhecimento ambiental, têm consideráveis efeitos positivos para a instalação de dispositivos adicionais eficientes no consumo energético assim como no consumo hídrico nas residências.Resultados como este sugerem que campanhas de informação e instrumentos de incentivo destinados a eficiência energética e hídrica podem gerar benefícios duplos: relacionados à conservação do recurso natural que é a água e o controle de seu uso e demanda.

Etiquetar oferece ao consumidor mais transparência, domínio sobre seu consumo de recursos hídricos, melhoria na gestão econômica individual, além de múltiplos impactos positivos ambientais e de construir uma sociedade mais consciente. E o Brasil tem plenas condições técnicas para tornar-se também referência global no desenvolvimento de sistemas de classificação de consumo e etiquetamento da eficiência!

Estudos dereferência:

Dieu-Hang, T., Grafton, R. Q., Martínez-Espiñeira, R., & Garcia-Valiñas, M. (2017). Household adoption of energy and water-efficient appliances: An analysis of attitudes, labelling and complementary green behaviours in selected OECD countries. Journal of Environmental Management, 197, 140–150. https://doi.org/10.1016/j.jenvman.2017.03.070

ONU. (2016). Agua Limpia Y Saneamiento. Objetivo 6: Agua Limpia Y Saneamiento, 1, 2. Retrieved from:https://www.un.org/sustainabledevelopment/es/wp-content/uploads/sites/3/2016/10/6_Spanish_Why_it_Matters.pdf


Resag
Avenida Paulista, 2.200 - 9º Andar, CEP 01310-300
Consolação, São Paulo - SP - Brasil
Tel.: +55 11 3283 1073
C2013 Resag - Todos os direitos reservados
Produzido por BRSIS